A chave que ele não devolveu

Ele disse que era só uma noite. Eu disse que estava bem com isso. Os dois mentimos com a boca e o pau não mentiu nenhuma vez.

O apartamento dele cheirava a sabonete barato e a suor limpo. Luz baixa. Camisa aberta demais pra quem “só ia tomar uma água”. Quando a porta fechou, o silêncio ficou grosso — aquele tipo que aperta a garganta e endurece tudo ao mesmo tempo.

Eu não pedi beijo. Ele também não. A gente foi direto pro que o corpo já tinha combinado no corredor: mão na nuca, boca no pescoço, dente sem pedir licença. O cinto saiu com um estalo idiota. O meu pau bateu na barriga dele e ele riu baixo, como se tivesse ganho uma aposta particular.

Quando gozei, foi sem teatro. Um tremor feio, honesto. Ele segurou meu quadril até terminar também, com um gemido preso no dente. Depois, nenhum de nós inventou carinho demais. Só água, camisa, a porta.

No elevador, ele colocou a chave do prédio na minha mão.

— Pra se eu faltar — disse. — Ou pra você faltar.

Eu não devolvi. Até hoje não devolvi. Às vezes acordo de madrugada com o corpo pedindo a parede dele de novo — e a chave fria no bolso do casaco, como um convite que eu ainda não tive coragem de usar só pra “tomar água”.

Aqui o homem sente. Inclusive quando finge que foi só uma noite.

— Quieto — murmurou. — Se falar demais, eu paro.

Eu fiquei quieto. Não por obediência. Por tesão puro, daquele que desliga o discurso. Ele me virou de frente pra parede, cuspiu na mão, e entrou devagar o bastante pra eu sentir cada centímetro como uma sentença. Eu segurei o reboco. Respirei pela boca. O mundo reduziu a isso: fricção, calor, o barulho molhado entre a gente.