Quinta-feira era o dia em que eu jurava que ia só treinar.
O box abafado, metal, giz, o espelho de parede inteira mentindo postura. Caio apareceu no meio do circuito de pernas como quem não sabe o estrago que faz: short curto, coxas grossas, a barra da camiseta subindo quando ele pegava o kettlebell. A gente se falava há semanas — dicas de carga, um “boa” no bebedouro, uma vez um “você tá forçando o joelho” que soou cuidado demais pra ser só técnica. Nada demais. Tudo demais.
Naquele dia, o olhar travou. Eu senti o pau mexer dentro da bermuda de compressão e odiei o próprio corpo por ser tão óbvio. Caio passou perto demais no agachamento seguinte e murmurou:
— Você tá treinando ou se escondendo?
Eu quase deixei a barra cair.
— Os dois.
Ele riu sem abrir a boca. No final da série, no corredor do vestiário, a voz dele veio baixa:
— Eu demoro no chuveiro. Se quiser… não precisa demorar junto. Só precisa entrar.
Eu levei dez minutos pra decidir. Lavando a garrafa. Amarrando o tênis de novo. Olhando o celular sem ver. Vergonha. Tesão. Medo de ser rejeitado no azulejo. Quando entrei no box de banho — 21h40, chuva lá fora, vestiário quase vazio — o vapor escondia metade. Caio estava de costas, água escorrendo pela coluna, a mão na parede. Quando olhou por cima do ombro e me viu, não fingiu surpresa. Estendeu a mão. Eu fui.
O primeiro beijo sob água quente foi desajeitado e perfeito: dente, riso, língua, o pau dele batendo no meu. Nos masturbamos juntos, lentos, a espuma descendo, o gemido abafado no pescoço um do outro. Eu ia gozar quando ele segurou a base do meu pau com o polegar firme.
— Ainda não.
— Caio…
— Ainda não — repetiu, e o sorriso foi cruel e doce. — Você aguenta.
Ele ajoelhou. Me chupou até a beira e parou. De novo. De novo. Minhas pernas tremiam. Eu xingava baixo, pedia, prometia. Cada “ainda não” era uma mão no peito e outra na virilha — me ensinando a ficar no quase sem desmoronar. Quando ele finalmente me virou contra o azulejo frio e me abriu com dedos molhados de sabonete e saliva, eu quase chorei de alívio. O pau dele entrou com paciência de quem sabe que o outro está destruído de vontade. Cada investida era fundo e medida. Ele falava no meu ouvido:
— Isso. Respira. Me aperta. Isso.
Eu gozei sem mão, só de ser fodido assim — jato quente no azulejo, visão tremida, um som que não reconheci como meu. Caio segurou meu peito, gozou dentro logo depois, o corpo inteiro endurecendo contra as minhas costas.
Ficamos sob a água até esfriar. Do lado de fora, enquanto vestíamos a roupa molhada de vergonha gostosa, ele perguntou, sério de verdade:
— Semana que vem… a gente treina de verdade primeiro? Eu não quero que isso vire só o banho.
Eu passei a toalha no cabelo e sorri.
— Treina. E depois a gente vê quem aguenta mais.
Na rua, a chuva fina. O peito leve e pesado ao mesmo tempo. Pela primeira vez o caminho até casa não foi fuga. Foi espera — da próxima quinta, do próximo olhar, do próximo “ainda não” que, no fundo, era o maior sim que alguém já tinha me dado.
No espelho do elevador do meu prédio, eu notei uma marca no pescoço. Não tapei. Deixei. Como quem finalmente para de se esconder no meio do treino.
