O pai não precisa estar no cômodo.
Basta a cadeira.
Aquela que ficou virada pra você — mesmo vazia, mesmo depois que a casa mudou, mesmo depois que a voz dele sumiu ou envelheceu ou morreu. Tem homem que transa, trabalha, goza, bloqueia, ri alto, e ainda assim consulta o canto da sala antes de decidir se pode.
Não é o pai real.
É o pai que ficou instalado.
O que media o choro.
O que torcia o canto da boca quando o menino demorava demais no abraço.
O que perguntava sem perguntar: isso é coisa de homem?
O que nunca precisou gritar. O silêncio dele já era lei.
A sala é qualquer lugar.
A cama. O banheiro. O carro depois do encontro. O segundo em que a mão do outro desce e o corpo pede — e alguma coisa antiga tosse do fundo.
Tem tesão que sobe e desce no mesmo minuto.
Não porque o corpo não quer.
Porque a cadeira encheu.
Quem você seria se essa cadeira estivesse mesmo vazia.
Se ninguém estivesse medindo o gemido.
Se o colo não precisasse de desculpa.
Se o desejo por outro homem — ou o desejo de ser cuidado, ou o desejo de ficar depois de gozar — não tivesse que passar no crivo de um olhar que nem está mais ali.
Talvez você demorasse no beijo.
Talvez chorasse no meio do sexo e não pedisse desculpa.
Talvez falasse baixo. Ou falasse demais.
Talvez deixasse o outro ver o peito sem transformar isso em prova.
Talvez o pau subisse mais fácil.
Não por técnica.
Por ausência de tribunal.
O pai na sala não é só o homem que te criou.
É o técnico. O feed. O amigo que ri. A versão de você que aprendeu a sobreviver sendo muralha. É a frase pronta: não enche, resolve.
Por isso tem homem que foge quando a coisa fica boa demais.
Não é desinteresse.
É a cadeira rangendo.
Ficar inteiro pede uma testemunha que não cobra.
E o corpo, cansado de performar filho, às vezes escolhe a porta.
Não é pra matar o pai.
É pra perceber que ele já não mora mais aí — e mesmo assim você ainda arruma a sala como se ele fosse sentar.
Quem você seria, agora, se a cadeira ficasse vazia de verdade.
Sem plateia.
Sem canto de olho.
Sem a pergunta que nunca foi feita em voz alta.
Só o cômodo.
Só o corpo.
Só o que sobra quando ninguém está medindo.
Aqui cabe esse homem também.
O que ainda consulta a sala.
E o que, de vez em quando, sente o peito afrouxar e não explica.
— Homem Que Sente
