Carta pra mim aos 15 #1: o que você escondia no histórico

Toda semana, aos domingos, um homem escreve pro garoto que ele foi aos 15. Essa é a primeira.

Oi, moleque.

Eu sei onde você tá agora. Quarto fechado, ventilador de teto fazendo aquele barulho de parafuso solto, o computador da família ligado na cozinha e você esperando todo mundo dormir pra apagar o histórico. Você apaga o histórico todo dia, mesmo quando não tem nada pra apagar. Só por garantia. Você vive por garantia.

Quero te contar umas coisas. Não vou te dar conselho de livro, porque você ia revirar o olho, e com razão.

Primeiro: o Diego. Eu sei. O boné virado pra trás, o jeito que ele ria com o corpo inteiro quando o professor de Física errava a conta no quadro. Você decorou o horário do ônibus dele. Você fingiu que gostava de Raimundos pra ter assunto. Você ficava nervoso quando ele encostava o joelho no seu debaixo da carteira e passava a aula inteira sem mexer a perna, com cãibra, só pra não acabar. Eu lembro da cibra. Lembro também que você chamava aquilo de amizade e acreditava. Não era errado sentir. Errado era você achar que sentir era um defeito de fábrica.

Segundo: a aula de Educação Física. Você vai continuar odiando o vestiário por um bom tempo. Não por causa dos outros garotos, mas porque você aprendeu cedo a vigiar os próprios olhos. Olhar pro chão, olhar pro azulejo, olhar pro relógio. Você ficou tão bom em não olhar que um dia vai esquecer como se olha alguém com calma. Vai levar anos pra reaprender. Mas reaprende. Prometo.

Terceiro: a palavra. Você já sabe qual. Ouviu no recreio, ouviu no almoço de domingo, ouviu na boca do teu tio rindo de alguém na televisão. Cada vez que ela aparece, você ri junto um segundo antes dos outros, pra ninguém desconfiar. Isso tem um preço, viu. Rir de você mesmo antes que alguém ria. Eu ainda pego esse reflexo em mim às vezes, com 33 anos, numa mesa de bar. Tô desaprendendo.

Agora o pai. Você acha que ele não fala com você porque sabe. Ele não fala com você porque não sabe falar com ninguém. Ele também apaga o histórico dele, só que de outro jeito: com futebol, com trabalho, com o silêncio do carro voltando da casa da avó. Um dia vocês vão ficar sozinhos numa sala de hospital, e ele vai segurar sua mão sem dizer nada, e você vai entender que aquilo foi tudo que ele conseguiu dar. Não é o suficiente. Mas é alguma coisa. Você vai poder escolher o que fazer com essa coisa.

Vou te contar uma boa também, porque você precisa de uma.

Aos 23 você vai beijar um cara numa rua do centro, de dia, com gente passando. Não vai acontecer nada. Ninguém vai gritar, o mundo não vai acabar, uma senhora vai passar com a sacola da feira e nem vai olhar. Você vai rir de nervoso no meio do beijo e ele vai rir junto. Vai ser a primeira vez que o teu corpo vai entender que dá pra existir sem pedir licença.

E vai ter gente. Amigo de verdade, daqueles que você liga às duas da manhã. Um deles é hétero, joga bola, fala alto, e é o primeiro pra quem você vai contar. Ele vai te abraçar e dizer “porra, só isso? achei que você ia falar que torcia pro outro time”. Você vai chorar de rir e de alívio ao mesmo tempo. Guarda essa cena. Ela tá vindo.

No vou mentir: vai doer em algumas partes. Vai ter noite ruim, vai ter gente que vai embora, vai ter um ano inteiro em que você vai achar que não tem lugar pra você em lugar nenhum. Mas você não vai estar tão sozinho quanto acha. Só tá cedo demais pra você ver os outros. Eles também estão de quarto fechado, apagando o histórico.

Uma última coisa. Aquele caderno onde você escreve o nome do Diego e depois risca tanto que o papel rasga: não precisa riscar. Ninguém vai ler. E se lesse, tudo bem. Gostar de alguém nunca foi o crime que te fizeram acreditar.

Te espero do lado de cá. Tá melhor do que você imagina.

Com carinho,
você, um pouco mais velho.


E você, se pudesse mandar uma frase pra você aos 15, qual seria? Escreve aqui nos comentários. Eu leio todas, e algumas podem virar a próxima carta.