Toda semana, aos domingos, um homem escreve pro garoto que ele foi aos 15. Essa é a segunda.
Oi, moleque.
Hoje eu quero falar da sua mãe. Eu sei, você já tá com aquela cara de quem quer mudar de assunto. Aguenta aí.
Você tá na cozinha agora, ajudando ela a descascar batata pro almoço de domingo, com o rádio ligado no programa de sempre e o cheiro de alho fritando. Ela pergunta da escola, você responde “normal”. Ela pergunta se tem alguma menina, você responde “nada a ver, mãe” rápido demais. Ela não insiste. Ela vira pro fogão e mexe a panela um pouco mais devagar. Você acha que se safou. Não se safou. Ela só escolheu não apertar.
Você passa tanto tempo com medo de que ela descubra que nem percebe que ela já descobriu. Faz tempo. Mãe repara em tudo: no jeito que você assiste novela, em quem você olha, no pôster que você não pendura. Ela reparou quando você chorou no banheiro depois da festa junina, aquela em que te puseram de par com a Fernanda na quadrilha e todo mundo ficou fazendo “uuuuh” na hora do casamento caipira. Você disse que era alergia ao pó do chão de terra. Ela fingiu que acreditou e foi comprar um antialérgico na farmácia da esquina. Pensa nisso um pouco: ela saiu de casa às nove da noite pra comprar remédio pra uma alergia que ela sabia que não existia. Era o jeito dela de cuidar sem fazer pergunta.
Eu não vou romantizar. Ela também falou umas coisas que doeram. Aquele comentário no jantar sobre o filho da vizinha, “que desperdício, um menino tão bonito”. Você engoliu o arroz sem mastigar e foi pro quarto. Ela disse aquilo com medo, não com nojo. Medo de que o mundo fizesse com você o que ela via o mundo fazer com os outros. Medo não é desculpa, mas é motivo. Vai levar uns dez anos pra você conseguir separar uma coisa da outra.
Sabe o que eu queria que você soubesse agora, aos 15? Que você não precisa proteger ela de você. Você vive editando o que conta: corta um nome aqui, troca “ele” por “um amigo” ali, inventa uma menina no MSN pra ter o que responder. Você acha que tá poupando ela. Na verdade tá poupando os dois de uma conversa que vai acontecer de qualquer jeito. E quanto mais você edita, mais longe ela fica, e mais sozinho você fica dentro de casa, que deveria ser o lugar mais fácil.
A conversa vai acontecer aos 22. Não vai ser como nos filmes. Não vai ter trilha sonora nem abraço em câmera lenta. Vai ser numa terça qualquer, no carro, parados num sinal vermelho, com ela segurando a bolsa no colo. Você vai falar meio gaguejando, olhando pro retrovisor. Ela vai ficar quieta até o sinal abrir. Depois vai dizer: “eu sei, filho. Eu só queria que você me contasse quando estivesse pronto”. E vai pedir pra você parar na padaria porque acabou o pão. Você vai rir no meio do choro, porque é a coisa mais a cara dela que existe.
Não vai ficar tudo resolvido ali. Ela vai demorar pra perguntar do seu namorado pelo nome. Vai errar, vai chamar de “seu amigo” mais de uma vez. Um dia, sem avisar, ela vai colocar um prato a mais na mesa do Natal e dizer “chama ele”. E aquele prato vai valer mais do que qualquer discurso.
Por isso, uma coisa prática: para de treinar a mentira. Você não precisa contar nada agora se não tiver segurança, isso é escolha sua e ninguém tem direito de arrancar de você. Mas para de ensaiar na frente do espelho a voz mais grossa pra atender o telefone. Para de rir das piadas do seu tio pra ela achar que tá tudo bem. Você não tá enganando ninguém. Tá só se cansando.
E quando você estiver na cozinha de novo, descascando batata, repara nela também. Repara que ela também guarda coisas. Que ela também teve 15 anos e também teve medo de alguém descobrir alguma coisa. Vocês são mais parecidos do que você imagina. Ela te ensinou a esconder porque foi o único jeito de proteger que ela conhecia. Você vai ensinar pra ela outro jeito.
Te espero do lado de cá. A mesa é maior do que você imagina.
Com carinho,
você, um pouco mais velho.
E você, se pudesse mandar uma frase pra você aos 15, qual seria? Escreve aqui nos comentários. Eu leio todas, e algumas podem virar a próxima carta.
