Quem percebeu primeiro foi a dentista.
Ela tirou o espelhinho da minha boca, empurrou a cadeira pra trás e perguntou, sem cerimônia, se eu andava estressado. Eu ri. Disse que não, que estava tudo tranquilo, só a correria de sempre. Ela apontou o desgaste nos meus dentes de trás e explicou que aquilo era coisa de quem trava a mandíbula dormindo, noite após noite. “Teu corpo está fazendo força enquanto você dorme”, ela disse. “Contra o quê, eu não sei.”
Eu também não sabia. E isso me incomodou mais do que o preço da placa que ela me receitou.
Porque eu sou o tipo de homem que se cuida. Pelo menos era o que eu dizia pra mim mesmo. Academia às seis da manhã, três vezes por semana. Aplicativo que conta passo, relógio que me diz quantas horas eu dormi e quantos batimentos tive subindo a escada do metrô. Exame de sangue todo ano, colesterol em dia, vitamina D anotada numa planilha. Eu sabia exatamente quanto levantava no supino. Não sabia dizer, se alguém perguntasse sério, como eu estava.
O número que ficou comigo
No sábado, 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, a Folha de S.Paulo publicou os resultados do Monitor da Saúde 2026, da Ipsos. A pesquisa ouviu 22.528 adultos em 32 países, cerca de mil deles no Brasil, entre julho e agosto. Por aqui, 58% apontaram a saúde mental como um dos principais problemas de saúde do país, acima da média global, de 48%. Um ano antes, eram 52%.
Mas foi outro número que ficou comigo. Entre as mulheres, 68% colocaram a saúde mental nessa lista. Entre os homens, 47%. Uma diferença de 21 pontos.
A pesquisa mede percepção, não diagnóstico. Ela não diz que os homens sofrem menos, nem explica de onde vem essa distância. Mas eu li aquilo e voltei pra cadeira da dentista. Pensei em quantas vezes respondi “tranquilo” no automático. E fiquei me perguntando se a gente enxerga menos o problema justamente porque aprendeu, desde menino, a não olhar pra ele.
Outro dado da mesma pesquisa, na média dos 32 países, ajuda a entender. Para 78% das pessoas, saúde física e saúde mental são igualmente importantes. Só que 75% contaram que pensam com frequência na saúde física, enquanto 63% disseram o mesmo sobre o bem-estar mental. A gente concorda que as duas importam. Na prática, uma ganha planilha e a outra fica pra depois.
O corpo como atestado
Acho que, pra muitos de nós, o corpo virou uma espécie de atestado. Se eu treino, se eu durmo sete horas, se o exame veio bom, então eu estou bem. É uma lógica confortável, porque ali tudo tem número. Peso, carga, quilômetro, frequência cardíaca. Dá pra medir, dá pra melhorar, dá pra mostrar.
E pra quem é gay, ou bi, ou cresceu se sentindo meio fora do lugar, o corpo às vezes carrega uma tarefa a mais. Ele vira armadura. Vira vitrine. Vira a parte da gente que dá pra controlar quando o resto parece não ter controle nenhum. Eu demorei pra admitir que algumas das minhas manhãs de academia eram menos sobre saúde e mais sobre fugir de uma pergunta. Suar é mais fácil do que sentir.
O problema é que o que está por dentro não aparece no espelho. Não existe aplicativo que avise que você está há semanas acordando com o peito apertado. Que você anda respondendo atravessado pra quem não merece. Que você inventou uma desculpa pra não ir ao aniversário de um amigo, depois outra pra faltar ao almoço de domingo da família, e achou que era só cansaço.
A pesquisa encontrou algo parecido, também na média global: 17% das pessoas disseram ter deixado de participar de encontros sociais ou familiares por questões de saúde mental. Eu conheço esse movimento por dentro. Ele não tem cara de crise. Tem cara de preguiça, de falta de tempo, de “semana puxada”. É uma retirada silenciosa, e quem está se retirando costuma ser o último a perceber.
As perguntas que o relógio não faz
Depois da dentista, eu não virei outra pessoa. Mas comecei a fazer uma coisa pequena, meio sem jeito no começo. À noite, antes de abrir o relatório de sono, passei a me fazer três perguntas. O que me pesou hoje. Onde isso ficou no corpo. Com quem eu poderia falar sobre isso.
No começo, a resposta da primeira era quase sempre “nada”. Levou um tempo até virar “a reunião”, “a mensagem do meu pai”, “essa sensação de que eu estou ficando pra trás”. A segunda me surpreendeu: quase sempre era a mandíbula, ou os ombros. A terceira foi a mais difícil. Foi por causa dela que eu finalmente marquei uma conversa com uma psicóloga, coisa que eu vinha adiando havia anos com a mesma desculpa de quem adia o dentista.
Não estou dizendo que terapia resolve tudo, nem que todo mundo tem acesso fácil a ela. Mas, na reportagem, Adriana Ghobril, líder de Pesquisas de Saúde da Ipsos Brasil, fala da importância de olhar para a saúde mental “não apenas sob a perspectiva do tratamento, mas também da prevenção e do cuidado contínuo”. É o que a gente já faz com o corpo. Ninguém espera infartar pra começar a medir a pressão. Por que a gente espera desabar pra começar a perguntar como está?
Cuidado contínuo, pra mim, tem sido isso. Nomear. Dizer “estou ansioso” em vez de “estou cansado”. Contar pro meu namorado que a semana foi ruim antes que ela vire mau humor em cima dele. Avisar um amigo que não estou bem, mesmo sem saber explicar o porquê. Coisas que não cabem numa planilha, mas que fazem o corpo, enfim, afrouxar.
Eu ainda uso a placa nos dentes. Ainda vou à academia às seis. A diferença é que agora eu sei que um corpo forte também pode estar fazendo força contra alguma coisa. E que cuidar de mim inclui ter coragem de perguntar contra o quê.
Se o peso estiver grande demais, não espere virar desgaste. O CVV atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188.
Me conta nos comentários: qual é o sinal que o seu corpo dá quando a cabeça não está bem? E quando foi a última vez que alguém te perguntou como você estava, e você respondeu de verdade?
