Toda semana, aos domingos, um homem escreve pro garoto que ele foi aos 15. Essa é a terceira.
Oi, moleque.
Hoje eu quero falar do tio Wagner. Eu sei. Você já sentiu aquele aperto no estômago só de ler o nome.
É o aniversário de 70 anos da vó, no quintal da casa dela, com a lona azul esticada por causa do sol, a churrasqueira de tijolo soltando fumaça e o carro do seu primo tocando pagode com o porta-malas aberto. O tio Wagner chega de ônibus de Curitiba, sozinho, com uma camisa de linho bem passada e um bolo de nozes numa caixa de confeitaria que ninguém da família conhece. As tias trocam olhares. Seu pai cumprimenta com um aperto de mão rápido e volta pra carne. Alguém solta baixinho “o solteirão chegou”, e a mesa ri daquele jeito que não precisa de explicação.
Você sabe o que essa risada quer dizer. Você aprendeu a ler ela antes de aprender a ler direito. Na sua família, o tio Wagner é uma frase que ninguém termina. “O Wagner é… o Wagner, né.” E ponto. Ele é o que mora longe, o que nunca trouxe namorada, o que manda cartão-postal em vez de aparecer no Dia das Mães, o que a vó defende com um “deixa ele” seco sempre que o assunto aparece.
E você, aos 15, faz uma coisa da qual eu não me orgulho, mas entendo: você foge dele. Ele te chama pra sentar do lado, pergunta da escola, quer saber que música você anda ouvindo, e você responde com uma palavra e inventa que vai buscar gelo. Você passa a tarde inteira longe da cadeira dele, como se aquilo pegasse. Como se alguém fosse olhar pra vocês dois juntos e somar um mais um. Você tem tanto medo de virar o assunto da mesa que trata o único cara ali que poderia te entender como se ele fosse um risco.
Eu sei por que você faz isso. Você olha pra ele e vê o futuro que te ensinaram a temer: o homem sozinho, de quem as tias riem, que volta pra casa num ônibus da madrugada com o resto do bolo num pote de sorvete. Você pensa “eu não quero isso”. E, sem perceber, decide que o problema é ele, e não a risada.
Deixa eu te contar o que você ainda não sabe.
O tio Wagner não volta pra uma casa vazia. Ele divide um apartamento no Batel há onze anos com o Celso, que é quem faz o bolo de nozes. Ele tem um vira-lata chamado Tom, uma turma que se encontra toda quinta pra jogar buraco e uma varanda cheia de samambaia. Ele não vem no Dia das Mães porque, na última vez que trouxe o Celso, seu avô levantou da mesa e não voltou. Ele preferiu poupar a vó de escolher entre o filho e o resto da família. Os cartões-postais eram o jeito dele de continuar ali sem pedir licença.
Você vai descobrir tudo isso aos 26, quando for pra Curitiba num feriado e, com uma coragem que nem sabe de onde veio, mandar mensagem perguntando se pode passar lá. Ele vai te buscar na rodoviária. Vai te servir café num copo americano e não vai fazer nenhuma pergunta difícil. Vai ser você que vai começar a falar, meio sem jeito, do cara com quem tá saindo. E ele vai rir, um riso bem diferente daquele da mesa, e dizer: “eu sabia desde o aniversário da tua vó. Você passou a tarde fugindo de mim. Eu fazia a mesma coisa com o tio Nelson.”
Tio Nelson. Você nem sabia que tinha existido um tio Nelson.
É isso que eu quero que você entenda aos 15: tem uma fila de gente antes de você. Gente que se virou sem nenhum exemplo, sem internet, sem novela que mostrasse, sem ninguém pra dizer que dava certo. Eles não foram embora porque eram tristes. Foram embora pra conseguir ser felizes em algum lugar. E muitos deles ficaram olhando pros sobrinhos nas festas de família, torcendo em silêncio, esperando que um dia algum deles sentasse do lado.
Então, uma coisa prática. No próximo almoço, senta do lado dele. Não precisa contar nada. Não precisa nem chegar perto do assunto. Só pergunta do bolo, do cachorro, de Curitiba. Deixa ele te mostrar uma foto da varanda no celular. Você vai ver que a vida dele é muito maior do que a frase que a família não termina.
E, quando você ouvir de novo aquela risada na mesa, repara em quem não ri. A vó não ri. Ela nunca riu. Um dia você vai perceber que aquele “deixa ele” era o maior discurso que ela conseguia fazer.
Te espero do lado de cá. Tem lugar na varanda.
Com carinho,
você, um pouco mais velho.
E você, se pudesse mandar uma frase pra você aos 15, qual seria? Escreve aqui nos comentários. Eu leio todas, e algumas podem virar a próxima carta.
