Toda semana, aos domingos, um homem escreve pro garoto que ele foi aos 15. Essa é a quarta.
Oi, moleque.
Hoje eu quero falar do espelho do banheiro. Aquele com a mancha escura no canto, em cima da pia onde sua mãe deixa o sabonete de erva-doce. Você sabe do que eu tô falando.
É lá que você treina. Porta trancada, chuveiro ligado pra ninguém ouvir, e você ensaiando o “e aí, mano” mais grave que consegue. Uma vez, duas, dez. Você abaixa o queixo pra voz sair mais do peito. Repete “suave”, “de boa”, “tá ligado” até soar natural. Depois treina a mão: nada de mexer muito, nada de apoiar no quadril, bota no bolso da bermuda e deixa lá. Treina até a risada, que você acha alta e fina demais, e tenta trocar por uma meio rouca, curta, que não chama atenção.
Tudo isso começou naquela tarde na frente da padaria, voltando da escola com a mochila de uma alça só. Um cara de bicicleta passou e gritou “anda direito, viado”, e os meninos da sua sala que estavam na calçada caíram na gargalhada. Você nem tinha percebido que andava de algum jeito. Naquela noite você ficou na frente do espelho do corredor tentando entender o que tinha de errado no seu passo. E desde então você anda contando os passos. Pisa mais pesado. Abre um pouco mais as pernas. Não balança os braços. Na educação física, você até tenta chutar a bola com força, mesmo odiando aquilo, só pra ninguém comentar.
Eu quero te dizer uma coisa com calma, porque sei que você vai ficar na defensiva: você não tem nada de errado. Nem a voz, nem a mão, nem o jeito de rir, nem o passo. O que tinha de errado era um cara de bicicleta que precisava diminuir alguém pra se sentir grande, e uma sala cheia de moleques com tanto medo quanto você, rindo pra garantir que o alvo não fosse eles.
Eu sei que, pra você, o treino parece proteção. E, olha, em algumas tardes, protegeu mesmo. Não vou fingir que o mundo lá fora era seguro, porque não era, e eu não te julgo por ter se escondido. Você fez o que dava com o que tinha. Mas eu preciso te contar o preço, porque ninguém te contou.
O preço é que você passou tanto tempo vigiando o próprio corpo que esqueceu de estar nele. Nas festas de 15 anos das meninas da sala, enquanto todo mundo dançava aquela música da Ivete, você ficou no canto, duro, com um copo de guaraná na mão, porque dançar era perigoso. Você não lembra de quase nenhuma dessas festas, só lembra de ter ficado prestando atenção em si mesmo. Durante anos, você tirou foto sempre do mesmo ângulo, com a mesma cara séria, porque sorrindo “parecia demais”.
E esse hábito vai durar mais do que você imagina. Aos 22, numa entrevista de emprego, você vai se pegar engrossando a voz pra falar com o gerente. Aos 25, num primeiro encontro, vai ficar tão preocupado em parecer “discreto” que o cara vai achar que você não tava a fim dele. Vai demorar pra você perceber que ainda tava trancado naquele banheiro, com o chuveiro ligado.
Sabe quando isso começou a mudar? Numa noite boba, num aniversário de um amigo, quando você tinha uns 27. Tocou uma música que você amava e, sem pensar, você levantou e dançou. Do seu jeito. Com a mão solta, rindo alto, aquela risada fina que você passou anos tentando matar. E aí um amigo, que te conhecia fazia pouco tempo, chegou do seu lado e falou: “nossa, nunca tinha te visto assim, você fica muito mais você”. Eu fui pra casa naquela noite e chorei no ônibus, de um jeito bom.
Então, uma coisa prática pra você, que ainda tá aí. Não precisa sair desfilando pela escola amanhã. Não é isso que eu tô pedindo. Só escolhe um lugar seguro, seu quarto, o fone de ouvido, a casa da sua amiga Camila, e lá não treina nada. Ri como você ri. Mexe a mão quando fala. Anda do jeito que suas pernas querem andar. Guarda esse jeito em algum lugar, porque ele é seu e vai fazer falta.
E da próxima vez que você trancar a porta do banheiro pra ensaiar a voz, olha pro espelho um segundo a mais. Aquele moleque ali não precisa de conserto. Precisa de alguém que fique do lado dele. Esse alguém vai ser você, um pouco mais tarde.
Te espero do lado de cá. Aqui a gente dança.
Com carinho,
você, um pouco mais velho.
E você, se pudesse mandar uma frase pra você aos 15, qual seria? Escreve aqui nos comentários. Eu leio todas, e algumas podem virar a próxima carta.
