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Sentir também é um ato de coragem.

Livros Quarto de Encontro

Capítulo 10 · 12 min

Consulta

O consultório ficava num sobrado menor que o nosso, três quarteirões depois da Consolação, com planta morta na entrada e uma placa discreta demais pra quem chega ansioso. Eu cheguei cedo. Sempre chego cedo quando o medo de faltar vira o medo de ser faltado. Sentei na sala de espera com a caneca imaginária na mão — a rachada ficou em casa — e contei a respiração até quatro, até oito, até o número perder o sentido e virar só ar.

Havia uma mulher mais velha folheando revista de celebridade e um menino com a mãe, joelho esfolado, silêncio de quem já chorou o que tinha. O ar-condicionado pingava num balde. Cheiro de álcool em gel e de café de máquina. Eu pensei no café ralo da nossa cozinha e senti saudade torta do ímã verde, das contas, do mofo — saudade de casa mesmo quando a casa doía. A ansiedade de abandono gosta desses truques: transformar o que aperta em porto, só pra não ter que sair ao mar sozinho.

A terapeuta se chamava Helena. Cinquenta e poucos, cabelo curto, voz baixa que não pedia desculpa por ocupar espaço. Eu tinha sumido três meses. Ela não cobrou o sumiço com moral; cobrou com a pergunta que doía certo:

— O que te trouxe de volta agora, Joe?

Eu olhei o quadro genérico na parede — paisagem sem gente — e pensei na tela do Nando, corpo sem rosto, luz no peito. Pensei no beijo do corredor. No envelope. No vapor do banheiro. Na frase *a gente pode ser ensaio*.

— A casa — respondi. — E o medo de ser o primeiro a ir embora. De novo. Sempre.

Ela assentiu, caneta parada no caderno.

— Conta a casa.

Contei sem catálogo completo. Contei o sobrado no segundo andar em Santa Cecília, o cheiro de mofo, o café ralo, as contas no ímã verde da geladeira, o senhorio que circulava valores a vermelho. Contei Brad: trinta e dois, gay, apps, uma dívida secreta com o ex que eu ainda não entendia por inteiro, o beijo curto, o acordo de ensaio sem virar quadro cedo. Contei Lia: vinte e nove, lésbica, demitida, envelope na gaveta das colheres, eu e agora o Nando sabendo, ela ainda sem confessar em voz alta pra casa. Contei Nando: quarenta e um, bi, pintor, cache, a promessa de *só hoje*, a tela, a limpeza do banheiro cumprida pela manhã. Contei Pri: vinte e seis, bi, sotaque do interior, café na Augusta, bloqueia e desbloqueia o ex como respiração. Contei Kaio: trinta e quatro, gay, janela em frente, desejo lento à distância, quase saudação, quase nada.

— E você no meio — Helena disse. — Segurando segredos pra não perder gente.

— É o meu esporte.

— É a sua ansiedade de abandono com uniforme de cuidado.

A frase entrou limpa. Eu quis discordar. Não discordar. Quis chorar e não chorei; o choro ficou no peito como vapor de banheiro compartilhado. Falei do mantra — *ser feliz de verdade* — e de como ele soava mentiroso quando eu o usava pra adiar decisão. Falei de ficar olhando enquanto o Nando errava em público pequeno. Falei do quase-toque com Brad depois do chuveiro, do ombro molhado, da gota na clavícula, do braço que raspou o meu no corredor estreito.

— Vocês nomearam ensaio — ela observou. — Ensaio permite falha. Também permite não escolher.

— Eu tenho medo de escolher. Escolher é começar a sair.

— Às vezes escolher é começar a ficar de verdade.

O silêncio dela era diferente do silêncio da casa: não puxava conta, não cobrava hidrômetro, não cheirava a thinner. Eu fiquei nele. Olhei as mãos. As unhas. A mancha fantasma de azul-cinza que já não estava na pele e ainda estava na memória do tênis.

Contei também a manhã do chuveiro: a fila, a conta no ímã, Lia contando dezessete minutos, Nando de toalha, Brad de toalha, o vapor, a quase-nudez adulta da convivência. Helena ouviu sem assombro. Assombro é luxo de quem não mora em república.

— Tem mais uma consulta hoje — eu disse, sem saber por quê. — Não minha. Em casa. Alguém vai ter que falar alguma coisa. Sinto o ar.

— Você não precisa ser a sala de espera de todo mundo.

— Se eu não for, quem é?

— Cada um. Inclusive você, da sua própria vida.

A sessão andou assim: em camadas, sem salvação, comigo tentando não transformar a terapeuta em mais uma pessoa a quem eu prometia ficar. No meio, ela perguntou o que eu fazia quando a ansiedade pedia fuga. Eu falei do celular tela pra baixo, da respiração até quatro, do café como ritual. Ela pediu que eu experimentasse, na semana, uma frase dita em voz alta pra alguém da casa — uma frase minha, não um segredo alheio. Eu assenti sem prometer. Promessa demais já era meu vício.

No fim, ela marcou o próximo horário. Eu aceitei. Paguei o que podia — o valor doía no bolso e mesmo assim era barato perto do custo de sumir de novo. Saí com a garganta seca e a cidade úmida grudada no pescoço.

Na rua, antes de pegar o ônibus de volta, cruzei com Kaio.

Não foi invenção. Ele saía de uma padaria com um saco de pão, camiseta escura, fone em uma orelha só. Trinta e quatro anos no rosto que eu só conhecia em fragmentos de janela. Nosso olhar se encontrou no meio-fio. O desejo lento deu um passo concreto — calçada, cheiro de pão, buzina — e eu quase finjo que não o reconheci. Quase.

— E aí — ele disse, simples, sotaque paulistano sem esforço.

— E aí.

Paramos. O saco de pão entre nós como trégua. Eu não sabia o sobrenome dele; ele talvez não soubesse o meu. Éramos vizinhos de vidro.

— Você mora no sobrado com o toldo azul, né?

— Moro. Segundo andar. A gente é barulhento às vezes. Desculpa.

Ele sorriu de canto.

— Barulho de gente viva. Prefiro isso a silêncio de prédio novo. Eu sou o Kaio. Da janela.

— Joe. Da outra.

Ficamos mais dois segundos. Nada de número. Nada de café marcado. Só o reconhecimento de que o olhar à distância tinha corpo e rua e pão. Ele ergueu a mão numa saudação mínima — a mesma da varanda — e seguiu. Eu fiquei olhando as costas dele sumirem na Consolação e senti o peito apertar de um jeito que não era só Brad, não era só casa: era a prova de que o desejo lento também anda na calçada, e que eu ainda não sabia o que fazer com provas.

No ônibus, apertei a barra da janela. São Paulo passava molhada: toldos, ambulantes, um casal brigando baixo no fundo do coletivo. Eu repeti mentalmente a lição de Helena — *frase minha, não segredo alheio* — e não achei nenhuma pronta. Achei só o medo de ser o primeiro a ir embora, sentado no meu colo como criança cansada.

Voltei pra Santa Cecília com o gosto de consulta na boca — metálico, necessário. Subi a escada. O terceiro degrau rangeu. A porta da frente cedeu com a chave torta. Cheiro de café ralo e de água sanitária residual. O ímã verde ainda segurava a conta. A caneca rachada estava limpa no escorredor. Nando tinha cumprido a parte do banheiro; o cheiro confirmava. A casa, por um instante, pareceu adulta.

Na cozinha, Brad digitava no celular com a testa franzida. Quando me viu, virou a tela pra baixo — rápido demais. O gesto era nosso espelho e também a porta dos fundos dele.

— Como foi?

— Foi. Eu falei da casa. Ela falou de mim. Empate técnico.

Ele soltou o ar. Parecia alívio e outra coisa.

— Eu também tenho… uma coisa. Não é terapeuta. É o Mel.

O ex. A dívida secreta. O nome caiu na mesa como prato.

— Consulta com o Mel — eu repeti, sem humor.

— Ele quer falar de dinheiro. Ou de nós. Ou dos dois. Marcou num café longe daqui. Eu disse que ia. Depois do seu horário, pra não… misturar.

— Misturar a gente já mistura.

Brad olhou pra baixo. O ensaio latejou entre a torneira e o ímã.

— Eu não quero que você ache que eu tô saindo pela porta dos fundos. É dívida. É resto. É eu tentando não deixar o passado virar boleto da casa. Metade do gás eu depositiei. A outra metade… depende disso.

A confissão parcial abriu um vão. Eu quis perguntar o valor. Não perguntei. Quis pedir pra ir junto. Não pedi. Quis ser feliz de verdade e a frase veio torta, íntima demais pra cozinha às cinco da tarde.

— Vai — eu disse. — E volta. Essa é a minha consulta pra você.

Ele assentiu. Quase sorriu. Quase tocou meu pulso em cima da mesa. O indicador dele chegou a um centímetro da minha veia e recuou. Quase. Eu guardei o centímetro como se guarda fóssil.

Lia entrou com uma pasta marrom debaixo do braço e o olho vermelho de quem não chorou em público. Vinte e nove anos, demissão ainda oficialmente secreta, a performance da marmita já rachando. Sentou. Abriu a pasta. Tinha currículos impressos e uma lista de vagas rabiscadas a lápis — salários baixos, requisitos altos, a matemática cruel de quem perdeu o chão e ainda limpa o chão dos outros.

— Eu também tive consulta — anunciou, voz firme demais. — Comigo mesma. No banco da praça. Decidi que vou mandar isso amanhã. Sem drama.

Pri, que chegara do café da Augusta com cheiro de espresso e leite queimado, pousou a mochila e olhou a pasta.

— Emprego novo? — perguntou, inocente demais pro tamanho do buraco.

O ar parou. Eu segurei o olhar em Lia. Nando, que subia do atelier com as mãos limpas pela primeira vez em dias, parou no vão. O envelope latejou na gaveta das colheres sem ser aberto.

Lia abriu a boca. Fechou. O quase-dizer engasgou de novo — *eu perdi…* — e virou outra coisa:

— Atualização — ela improvisou. — Mercado tá uma merda. Quem não atualiza morre.

Pri assentiu, sem perceber a fissura por inteiro, ou percebendo e escolhendo a gentileza do não espetacular. Foi tomar água. Mexeu no celular — bloqueio, desbloqueio, o ritual do ex — e deixou a tela pra baixo. Brad fingiu mexer no pão. Nando olhou pra mim — cumplicidade indesejada do dia do ensaio — e depois pra Lia, suave demais pra quem briga por chuveiro.

— A tela tá com a luz ainda no peito — ele disse, mudando o assunto com a delicadeza tosca de pintor. — Não tapei. Como você pediu.

Lia soltou o ar. Guardou a pasta.

— Obrigada.

Não era só sobre a tela. Era sobre a água, sobre o cache, sobre o silêncio cúmplice. Eu senti Helena na cabeça: *você não precisa ser a sala de espera de todo mundo*. Mesmo assim, eu era. A casa me usava assim. Eu me oferecia assim. Talvez a frase minha da semana fosse exatamente essa, dita um dia: *eu também canso*. Ainda não disse.

Jantamos cedo e mal: arroz, ovo, o resto do feijão da Pri aquecido demais. Conversa rala. Pri falou do cliente chato da Augusta que pediu cappuccino sem espuma e reclamou da espuma. Brad falou pouco; a consulta com o Mel ainda pela frente. Nando bebeu água — só água — e o fato foi notícia sem manchete. Lia alinhou as folhas da pasta como se alinhamento fosse emprego.

Depois da louça, eu lavei a caneca rachada mesmo limpa, só pra ter o que fazer com as mãos. O ímã verde tremeu quando fechei a geladeira. A conta de água olhou de volta. Eu fui à varanda.

A chuva miúda voltara. O toldo pingava o ritmo irregular de sempre. Do outro lado, a janela do Kaio estava acesa. Ele apareceu, ergueu a mão. Eu ergui a minha. Dessa vez o gesto carregava a rua: o pão, o “e aí”, o nome trocado em voz alta. Desejo lento com endereço. Nada mais. Nada menos. Não precisei salvar aquilo virando encontro. Bastou o reconhecimento.

Brad apareceu na porta da varanda com o casaco.

— Eu vou. No Mel.

— Vai.

— Joe…

— Volta. Eu já falei.

Ele ficou um segundo. O joelho quase tocou a moldura. O meu quase respondeu. Depois desceu a escada. A porta da frente bateu com o cuidado de quem não quer acordar briga.

Fiquei na varanda até a luz do Kaio mudar de cômodo. Até Nando desligar o atelier. Até Lia fechar o quarto com a pasta em cima da cama, eu sabia, como santinho às avessas. Pri riu de alguma coisa no celular — desbloqueio, talvez — e depois o riso sumiu. A casa ficou com quatro pulmões e um ausente.

Eu entrei. Deitei de lado. Celular na cadeira, tela pra baixo. Sem aplicativo. Sem cobrança. Pensei na sala de Helena, na paisagem sem gente, na frase sobre não ser sala de espera. Pensei nas três consultas do dia: a minha paga, a do Brad com o passado, a da Lia consigo mesma no banco da praça. Nenhuma resolvia a demissão por completo. Nenhuma transformava ensaio em quadro. Nenhuma apagava o ímã verde nem o envelope.

A casa inteira respirou em andares — quem saiu, quem ficou, quem mentiu por omissão, quem limpou o boxe e quem ainda contava minutos de água. Eu guardei a ansiedade de abandono junto com o nome do Kaio dito em voz alta pela primeira vez e o quase-toque do Brad na mesa. Amanhã teria currículo, talvez briga, talvez café ralo de novo. E o mantra, teimoso, sujo de uso, ainda assim meu: ser feliz de verdade, se viesse, viria sem eu precisar salvar a república inteira numa única sessão — só permanecer, úmido, humano, sob a chuva miúda de Santa Cecília, até a próxima porta abrir sem eu ser o primeiro a atravessá-la fugindo.