O amigo que eu parei de ligar

Tem um nome no meu celular que eu não apago e não ligo. O Duda. Foi o cara que me buscou na rodoviária quando eu cheguei na cidade com duas malas e nenhum plano. Que dormiu no meu sofá na semana em que o pai dele morreu e não falou quase nada, só ficou. A última mensagem entre a gente é um “bora marcar, mano” de março. Minha. Ele respondeu com um joinha. E foi isso.

Ninguém brigou. Ninguém traiu ninguém. A gente só foi deixando.

Pensei nele essa semana lendo sobre um estudo publicado na Nature Communications por pesquisadores da Universidade Tulane, nos Estados Unidos. Eles analisaram dados de 277.489 adultos entre 40 e 69 anos, do UK Biobank, e olharam pra duas coisas que a gente costuma misturar: isolamento social, que é ter poucos contatos, e solidão, que é sentir que as relações que você tem não dão conta. O resultado que mais me pegou: aos 50 anos, homens que viviam as duas coisas juntas tinham cerca de 5,8 anos a menos livres de depressão e ansiedade do que homens que não viviam nenhuma delas. Nas mulheres, a diferença foi de 3,7 anos.

O estudo é observacional. Não prova que a solidão causa a doença, mostra associação, e os próprios pesquisadores dizem que o próximo passo é investigar causalidade. Mas o autor principal, Lu Qi, resumiu de um jeito que ficou ecoando em mim: a pesquisa encontrou que os homens são mais suscetíveis a serem afetados pela solidão.

Quase seis anos. Fiquei tentando imaginar isso em vida concreta. Seis anos é uma faculdade inteira com sobra. É uma criança saindo da fralda e aprendendo a ler. É muito tempo pra passar com o peito apertado achando que é só cansaço.

Tem outro detalhe no estudo que me desmontou mais do que o número. Os pesquisadores olharam também pros hábitos: alimentação, exercício, sono, cigarro. Viver de um jeito mais saudável diminuiu a perda ligada ao isolamento. Mas, no caso da solidão, esse efeito não foi estatisticamente significativo. Traduzindo pro português da academia: não dá pra compensar no supino o amigo que você não liga.

E olha que eu tentei. Eu sou do tipo que resolve sentimento com planilha. Tá triste? Acorda cedo, treina, corta o açúcar, lê dez páginas. Funciona pra muita coisa. Pra essa, não. Tem noite que eu saio da academia com o corpo ótimo e volto pra casa com um silêncio que nenhum treino alcança.

O Setembro Amarelo acaba amanhã. Durante trinta dias a gente viu fita amarela em perfil, palestra em empresa, post dizendo “fale com alguém”. Eu acho tudo isso importante, de verdade. Mas fico pensando que “fale com alguém” pressupõe que exista alguém. Pressupõe que, na hora em que o chão some, você tenha um nome no celular que não seja o do chefe, o do delivery ou o de um cara que você não chama desde março.

Homem aprende a ter amigo de função. Amigo do futebol, amigo do trabalho, amigo da cerveja de sexta. A amizade existe enquanto a atividade existe. Acabou o campeonato, mudou de emprego, casou, mudou de bairro, e a amizade vai junto, porque ela nunca teve permissão de ser sobre a gente. Era sobre o jogo. A gente se abraça no gol e trava no abraço que não tem gol nenhum no meio.

Eu me lembro de uma vez, bem no começo, em que eu liguei pro Duda chorando. Nem lembro direito por quê, alguma coisa de amor. Ele ouviu tudo e no final perguntou: “tá, mas tu tá bem?”. Eu disse “tô, tô, relaxa” e mudei de assunto pra vergonha passar mais rápido. Hoje eu sei que aquele “tô bem” foi o começo do fim. Não porque ele se afastou. Porque eu aprendi que precisar dele me custava caro demais. E fui pagando menos, ligando menos, até não ligar mais.

Solidão de homem nem sempre é estar sozinho. Tem cara cercado de gente que não tem ninguém. Tem grupo de WhatsApp com quarenta homens e nenhum que saiba que você não dorme direito há um mês. O estudo separa bem as duas coisas: isolamento é contar contatos, solidão é sentir que eles não chegam onde dói. Dá pra ter agenda cheia e peito vazio.

E tem uma camada que a gente fala pouco: o medo de que afeto entre homens seja lido como outra coisa. Muito cara prefere ficar sozinho a correr o risco de parecer carente, mole, “estranho”. Pra quem é gay, bi, ou ainda não sabe direito o que é, essa trava vem em dobro. Você aprende cedo a medir cada abraço, cada “saudade”, cada mensagem depois das onze da noite. E o afeto vai ficando racionado, como se fosse coisa que acaba.

Não tenho solução bonita. Tenho uma coisa pequena que fiz ontem à noite, depois de ler tudo isso. Abri a conversa com o Duda. Fiquei uns dez minutos olhando o joinha de março. Escrevi e apaguei três versões. Mandei a quarta: “Pensei em você hoje. Sinto sua falta, cara. Sem motivo nenhum.”

Ele ainda não respondeu. Pode ser que responda com outro joinha. Pode ser que nem responda. Mas, pela primeira vez em meses, o silêncio entre a gente não foi decisão minha.

Se você chegou até aqui, faz um exercício comigo. Pensa em um nome. O primeiro que veio, aquele que deu um aperto. Não precisa ser conversa profunda. Não precisa explicar nada. Um “lembrei de você” já atravessa muita coisa.

E me conta aqui nos comentários: quem é o amigo que você parou de ligar? O que fez você parar? E o que te impede de mandar mensagem hoje? Eu leio todos. Juro que leio.

Se o peso estiver grande demais pra esperar resposta de alguém, o CVV atende de graça, 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br. Pedir ajuda não é fraqueza. É só a gente parando de pagar sozinho uma conta que nunca foi só nossa.


Fontes: estudo na Nature Communications (Tulane University, setembro de 2026); divulgação da Tulane University; cobertura do Pará+ (23/09/2026).