O elevador do prédio do André travava uma vez por mês, todo mundo sabia. Por isso ninguém reclamava de verdade — reclamava só pra ter assunto no WhatsApp do condomínio. Naquela terça, porém, quando a cabine deu um solavanco entre o 7º e o 8º e a luz piscou, o silêncio caiu diferente.

Éramos só nós dois. Eu, com a sacola da farmácia e a camisa ainda amarrotada do expediente. Ele, de shorts esporte, fone no pescoço, peito subindo rápido demais pra quem só tinha subido escada de academia no térreo. O suor no osso da clavícula brilhava sob a luz de emergência. Eu desviei o olhar um segundo tarde demais pra fingir que não tinha visto.

— De novo — ele murmurou, e riu baixo, sem graça. — Se demorar, a gente morre de calor.

Eu poderia ter dito qualquer coisa prática. Em vez disso saiu:

— Ou de vergonha.

Ele me olhou de verdade pela primeira vez. Não o cumprimento de corredor. O olhar que mede. Eu engoli em seco e fingi mexer no celular sem sinal.

Cinco minutos. Dez. O ar ficou pesado de desodorante barato, peixe da sacola de alguém que não era a minha, e pele quente. Eu conhecia André só de elevador: o cara do 802 que punha música alto domingo e puxava “e aí” com a naturalidade de quem nunca passou vergonha na vida. Eu era o do 504 que chegava tarde, fone no ouvido, cara de quem não quer conversa. Ali, sem escape, a máscara não tinha onde sentar.

Quando a cabine estremeceu de novo e não subiu, André tirou o fone.

— Você é o do 504, né? O que chega tarde.

— E você é o que põe música alta domingo de manhã.

Ele sorriu de lado.

— Então a gente já se conhecia sem se conhecer.

O silêncio seguinte não foi vazio. Foi ocupado. Eu senti o próprio pau reagir antes da cabeça autorizar — aquele inchaço traidor na calça social, impossível de esconder se ele baixasse o olhar. Ele baixou. Não por acidente. Segurou um segundo a mais do que educação permite, e quando ergueu o rosto de novo, as pupilas estavam largas.

— Se a gente ficar preso aqui… — começou, e parou.

— O quê?

— Nada. Besteira.

Mas a besteira já estava no espaço entre nós. Eu quase pedi pra ele terminar a frase. Em vez disso, dei um passo. Só um. O suficiente pra sentir o calor do corpo dele sem tocar. André não recuou. A respiração dele bateu no meu pescoço quando a cabine balançou de leve, e a mão dele — grande, veias saltadas — encostou na minha cintura como se estabilizasse. Ficou lá. O polegar fez um círculo mínimo na minha camisa, quase um tique nervoso. Eu soltei o ar que estava prendendo desde o 7º.

— Câmera — consegui dizer, a voz mais baixa que eu queria.

— Tá morta faz mês. Todo mundo sabe. Até o síndico.

Não foi um beijo de cinema. Foi boca com pressa contida, dente batendo, saliva, o gemido curto que ele soltou no meu lábio inferior quando eu puxei a camiseta suada pra cima e senti o peito quente contra a palma. O pau dele já marcava o short. Eu apertei por cima do tecido e ele xingou baixo, a testa na minha.

— Porra… se alguém chamar o técnico agora…

— Então para.

Ele não parou. Eu também não.

Eu ajoelhei no chão sujo do elevador com o coração na garganta — vergonha e tesão no mesmo gole — e puxei o short. O pau dele bateu pesado na minha boca, salgado de suor, vivo. André segurou meu cabelo sem forçar, só pra sentir. Eu chupei devagar primeiro, apreciando o peso, a veia latejando na língua, o jeito que o abdômen dele contraiu quando eu desci até quase engasgar. Ele puxava o ar pelos dentes. Eu subia e descia no ritmo de quem sabe que o tempo pode acabar a qualquer segundo — e por isso cada segundo ganhava gosto de furto.

— Assim… isso… olha pra mim.

Quando ele puxou meu cabelo pra eu olhar, o rosto dele estava destruído de prazer — boca aberta, olhar úmido. Eu levantei. Abrimos minha calça em silêncio frenético. A mão dele me masturbou com saliva, firme, enquanto eu mordia o ombro dele pra não gemer alto demais. O elevador cheirava a sexo antes mesmo de a gente gozar.

Ele virou de frente pra parede, me olhou por cima do ombro, e aquilo foi um pedido inteiro. Eu cuspi na mão, preparei, entrei devagar — o anel apertando, o calor absurdo — e parei fundo só pra ouvir ele respirar. Empurrei de novo. André empurrou de volta. O ritmo achou a gente: curto, fundo, suado, a cabine rangendo como cúmplice. Em algum momento ele buscou minha mão e entrelaçou os dedos contra o espelho embassado. Aquele gesto — íntimo demais pro lugar — me fez gozar primeiro, mordendo a camiseta dele, jorrando dentro com um tremor que me tirou o chão.

Ele gozou na minha mão logo depois, quente, muito, o nome de ninguém na boca — só um som rouco. Ficamos colados, sujos, rindo sem graça e com toda a graça do mundo. Eu limpei o que pude com o papel da farmácia. Ele ajeitou o short. A gente não se olhou por alguns segundos; quando se olhou, era outra conversa.

A luz voltou três minutos depois. O elevador subiu como se nada. No 8º, a porta abriu pro corredor vazio. André segurou a porta com o pé.

— Se travar de novo… me chama. Ou não precisa travar.

Eu entrei no 504 com o corpo ainda latejando. No espelho do banheiro, a boca vermelha, o cabelo destruído, o peito disparado. Não era só porra. Era a certeza de que, da próxima vez que o elevador demorasse, eu não ia rezar pra subir rápido.

Ia rezar pra demorar o bastante. E, se não demorasse, talvez eu apertasse o botão de emergência só um segundo — o suficiente pra lembrar o gosto daquele quase.