Quem você seria se não precisasse provar nada?

E se, do nada, o mundo inteiro parasse de cobrar?

Sem plateia. Sem pai te olhando de canto, esperando que você seja o muro que nunca racha. Sem mãe disfarçando a preocupação com “homem não chora”. Sem parceiro te medindo pela força com que você segura a bronca, pela grossura da carteira, pela duração na cama. Sem amigos transformando cada conversa em leilão de quem comeu mais, ganhou mais, aguentou mais porrada sem reclamar.

Sem espelho te lembrando que o peito tem que ser tanque, a barba perfeita, a voz grave o suficiente pra intimidar. Sem rede social te empurrando pra postar vitória, músculo, carro, viagem — tudo pra provar que você tá vencendo uma corrida que ninguém perguntou se você queria correr.

Quem sobraria quando todas as máscaras masculinas caíssem?

O menino que se escondia no banheiro da escola pra chorar depois de levar um fora. O adolescente que gozava pensando no amigo do futebol, sentindo o pau latejar de tesão e o peito apertar de vergonha logo em seguida. O cara de vinte e poucos que, depois de uma transa bruta, ficava olhando pro teto querendo só um abraço longo, mas rolava pro lado pra não parecer carente. O homem de trinta, quarenta, cinquenta que ainda acorda no meio da noite com o coração acelerado, pensando se alguém algum dia vai perguntar “como você tá de verdade?” e realmente querer ouvir a resposta.

A performance masculina que nos consome

A gente nasce e já entra no palco. Desde pequeno: “menino não brinca de boneca”, “menino não usa rosa”, “menino não chora”. Cresce ouvindo que tem que proteger, prover, performar. Na academia pra provar que ainda é forte. Na cama pra provar que ainda sabe foder direito. No trabalho pra provar que não é substituível. Na balada pra provar que ainda pega. Na briga pra provar que não leva desaforo.

Tudo performance. Tudo armadura. Tudo medo disfarçado de orgulho.

E o preço dessa validação externa? A gente esquece quem é sem máscara. Acha que sentir fundo é fraqueza. Que querer colo é coisa de menino. Que chorar depois do gozo é anormal. Que desejar ser fodido, ser segurado, ser pequeno às vezes é menos homem. Que admitir “tô cansado pra caralho” é derrota.

E se você parasse de provar masculinidade?

Imagina se parasse tudo isso.

Se você pudesse acordar, olhar pro cara do lado e simplesmente deitar a cabeça no peito dele sem precisar justificar. Se pudesse dizer “hoje não quero foder, só quero ser abraçado” e isso bastasse. Se pudesse gozar devagar, gemendo baixinho, deixando o corpo tremer sem pressa de provar intensidade. Se pudesse olhar pros amigos e falar “tô perdido pra porra” e receber um abraço ao invés de um “seja homem”. Se pudesse envelhecer sem correr atrás de pílula azul, de academia frenética, de affair pra provar que ainda funciona.

Quem você seria de verdade?

Talvez um homem mais inteiro. Que ri de verdade, sem forçar a gargalhada pra parecer confiante. Que transa por tesão puro, não por medalha. Que chora no banho e sai mais leve. Que olha pro outro nos olhos e sente desejo sem precisar transformar em competição ou piada. Que admite que às vezes quer ser o cuidado, o protegido, o vulnerável — e isso não diminui nada.

Porque a real é essa: o homem mais forte que eu conheço é o que tira a armadura sem medo de ficar nu. É o que goza e fica ali, quieto, deixando o outro encostar. É o que não precisa provar porra nenhuma porque já se aceita inteiro — com tesão, com dor, com medo, com vontade de colo.

E você? Se amanhã ninguém mais exigisse performance… Se ninguém mais te medisse pelo que você conquista, pelo quanto você aguenta, pelo quanto você esconde… Quem você finalmente deixaria ser?

Pensa nisso. Sente isso. Não precisa responder pra ninguém. Mas deixa entrar.

Porque homem que sente não precisa provar. Sente e pronto.