A chave que ele não devolveu
Ele ficou com a chave. Eu fiquei com o corpo ligado até de manhã.

Ele ficou com a chave. Eu fiquei com o corpo ligado até de manhã.
Tem gente que sai e leva um objeto pequeno — e o objeto vira prova de que a noite ainda não acabou. A fechadura lembra. O sofá lembra. A toalha no chão lembra.
O corpo não entende término no mesmo ritmo da conversa. Entende cheiro, marca na pele, a cadeira ainda fora do lugar. Fica ligado como se a visita fosse voltar. Às vezes volta. Às vezes a chave é só um jeito de não fechar direito.
Ficar assim não é fraqueza. É o sistema nervoso tentando completar um gesto. É desejo sem destinatário claro, ainda ocupando a casa.
Dá para transformar isso em obsessão. Dá para transformar em texto, em silêncio honesto, em um copo d’água e a decisão de não preencher o vazio com qualquer corpo.
Eu não quis a chave de volta naquela hora. Quis que o quarto parasse de parecer espera. Quis que o prazer tivesse tido testemunha — não só rastro.
No fim, o que não se devolve quase nunca é metal. É a permissão de ter sido atravessado. E a coragem, de manhã, de sentir isso sem fingir que foi só uma noite qualquer.