A porta antes da decisão
Às vezes você não vai embora porque não quer. Vai embora porque ficar ficou real demais.

Fugir quase nunca parece fuga quando acontece. Parece lógica. “Tô atrasado.” “Melhor não complicar.” “Foi só uma noite.” A mão já acha a chave. O corpo já está de pé enquanto a boca ainda diz “foi bom”.
O medo não é do sexo. É do depois. Do café. Do “o que a gente é”. Do silêncio em que alguém pode perguntar de verdade como você está — e aí não tem piada pra tapar o buraco.
Tem homem que goza e some. Tem homem que some antes de gozar, porque a intimidade chegou primeiro e isso assustou mais que o tesão. Tem homem que responde seco no dia seguinte não por indiferença, mas porque a indiferença é o disfarce mais barato da vulnerabilidade.
Fugir protege… até não proteger mais. Porque o peito continua na cama que você deixou. Porque a memória do cheiro volta no elevador. Porque a solidão depois da saída “inteligente” dói igual — só que com a mentira de que foi escolha fria.
Aqui, fugir não é crime. É dado. Dá pra olhar o automático sem se odiar. Dá pra notar a porta e, uma vez que seja, não atravessar tão rápido. Ficar cinco minutos. Beijar sem pressa de encerrar. Dizer “quero te ver de novo” mesmo com a voz falhando.
Se você reconhece a mão na maçaneta, respira. A decisão ainda pode esperar. Às vezes coragem não é ir embora inteiro. É ficar o suficiente pra descobrir o que o corpo estava tentando não sentir.