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Sentir também é um ato de coragem.

Livros Quarto de Encontro

Capítulo 22 · 13 min

Inventário

O dia depois da despedida parcial pediu lista. Não metáfora primeiro: papel, caneta, geladeira. Eu acordei com a boca seca e a certeza feia de que inventário é oração laica de quem teme despejo. Santa Cecília amanhecia sem chuva grossa, só uma umidade teimosa no toldo; a janela do Kaio entreaberta; a cadeira vazia na cozinha ainda vazia, ofendida de propósito. Brad dormia de boca aberta, ensaio em pausa, a marca do costado escondida na camiseta. Levantei. Chinela. O terceiro degrau rangeu. Na porta da geladeira, sob o ímã verde e o azul, Lia já tinha pregueado uma folha sulfite com o título em letra de síndica: *INVENTÁRIO — o que é da casa / o que é de cada um / o que a dívida come*.

Li em pé, caneca rachada na mão, café ainda não feito. Colunas tortas. Números. Nomes. A pobreza íntima da república em modo cartório afetivo. Embaixo, uma linha dela: *sem vilania; com medo; com prazo*. Eu sorri sem humor. Adultos, por favor, de novo — eco do bilhete do chuveiro, eco do presente da Pri no meu ciclo, agora com ela no interior e a gente aqui contando o que sobrava.

— Reunião de inventário — Lia anunciou quando os corpos foram aparecendo, Nando com o copo d'água, Brad com o celular tela pra baixo, eu com a voz ainda de sono. — Não é só móvel. É quem fica. É o que levar se a venda ganhar. É o que a gente ainda deve ao senhorio, ao Mel, ao gás, à UPA, ao próprio peito. Joe, você conta em voz alta. Tem jeito de reza. A casa precisa ouvir. Sem grito. Sem teatro.

Aceitei o ofício. Abri a folha. A voz saiu rouca, de quem conta oração sem deus garantido, só teto ameaçado e gente em volta.

— Mesa da cozinha: da casa. Quatro cadeiras — três presentes, uma em suspenso, lugar da Pri. Geladeira: aluguel embutido, nossa de uso, ronca quando quer. Sofá furado: Nando trouxe anos atrás, fica com Nando se sair. Estante torta: da casa. Cama do Brad: dele. Cama minha: minha, lençol remendado. Cama da Pri: dela, vazia; guarda-roupa com blusa esquecida e um par de chinelo — a gente embala e manda depois ou guarda até o depois dela. Atelier no térreo: Nando. Tela do corpo sem rosto: Nando, inegociável. Cadeira pintada ontem, espaldar torto, luz no assento: Nando, agora memória da despedida. Cavalete: Nando. Ventilador: da casa. Caneca rachada: minha, inegociável, vai comigo até o fim do mundo barato. Ímã verde: da casa. Ímã azul: da Pri e da casa agora. Papel branco do senhorio: de ninguém e de todos. Envelope da demissão: Lia. Carta pra mãe: Lia, ainda não enviada. Comprovante da primeira parcela do Mel: Brad. Chave torta: minha. Lona do Kaio: emprestada, devolver ou ficar enquanto o teto for argumento. Balde: da casa. Caneca no box da noite suja: voltou à pia. Mancha do teto: evidência fotografada. Velas tortas do aniversário: da casa, memória. Chaveiro de caneca minúscula: meu, presente do Brad. Buraco na mesa: Pri. Janela do vizinho: não é nossa e entra na lista mesmo assim.

Parei. A lista molhava os olhos sem pedir choro completo. Nando assentiu, sério, a quase-cicatriz do supercílio clara demais sob a lâmpada. Brad passou a mão no cabelo. Lia anotava o que a voz esquecia — extensão, panela sem cabo, o sabonete no box. Inventário literal virava inventário emocional no mesmo fôlego; eu não conseguia separar, e a casa também não. Separar era mentira de quem nunca morou em república.

— Dívidas — continuei, porque alguém tinha que dizer a parte que dói em número. — Aluguel: atraso parcial, proposta incompleta, quinze dias correndo desde o papel, visita ao escritório comprou tempo sem garantia. Condomínio inventado: disputa antiga, item de chantagem. Gás: metade paga por Brad, metade no fio. UPA do Nando: Uber e café, pequeno e simbólico, quase fechado no envelope coletivo. Mel: primeira parcela paga no prazo; segunda renegociada, casa na frente da quinzena, porta que por enquanto não toca. Freelance meu: três promessas ainda sem cliente de verdade. Currículo da Lia: retornaremos, automático e frio. Cache do Nando: perigo nomeado, água no lugar do álcool neste turno. Gorjeta da Pri: agora no interior, com a mãe. Fiador: nenhum no papel; a gente no peito, que o cartório não aceita e o senhorio finge não entender.

A frase do fiador rachou a cozinha de novo, eco do quase fim da casa. Silêncio. O ventilador. Longe, uma furadeira de obra — São Paulo indiferente ao nosso tribunal. Eu bebi o café ralo. Amargou certo.

Passamos aos corpos. Quem fica. A pergunta feia, necessária, postada na geladeira como se geladeira pudesse arbitrar destino.

— Eu fico os dias que o prazo der — Lia disse, sem batom, com a pasta ao lado como arma branca. — Se venderem, eu tenho a carta pra mãe. Posso enviar. Posso voltar pra um quarto que não é meu desde os vinte. Não quero. Quero lutar mais. Quantos dias? Os que sobrarem. Sem romance de resistência eterna. Com planilha. A demissão já me inventariou uma vez; eu não deixo o senhorio fazer a segunda sem eu estar olhando.

— Eu fico enquanto a tela couber no térreo — Nando falou. — Se despejo, a tela vai no Gol do Kaio se ele emprestar, ou no Uber caro, ou no colo até doer. Eu posso sofá de conhecido. Já ameacei ontem, depois da Pri. Hoje eu escolho ficar e pintar o inventário se precisar — objeto por objeto, até a lista virar exposição inútil e bela. Água, não cache. Hospital leve me ensinou susto. Inventário me ensina método. Acordo.

Brad demorou. Olhou pra mim. Olhou o ímã. Olhou a cadeira vazia. O ensaio latejou no olhar: laje, Mel, carta, madrugada, bolo, chuva, ciúme e gratidão.

— Eu fico. Sem ser o primeiro a ir. Sem sumir se a conta apertar. Sem usar você de teto, Joe. Se a casa acabar, eu quero tentar o fora com você — se você quiser — sem hidrômetro mandando no ensaiar. Dentro, por enquanto: eu fico. Mel no prazo renegociado. App sem desaparecer da mesa. Medo nomeado. Ciúme e gratidão do Kaio ainda na prateleira, inventariados também, sem fingir que não existem.

Chegou minha vez. Frase minha. Helena latejou como se estivesse na cadeira vazia, perna cruzada, ouvindo o paciente inventariar a própria casa.

— Eu tenho medo de ser o primeiro a ir embora. Sempre tive. Inventário me obriga a ver que ir embora também pode ser coletivo, e isso assusta de outro jeito — mais justo, mais sem vilão. Eu fico. Luto mais X dias — os que o senhorio mediou, os que a gente esticar com vazamento fotografado e proposta. Se o fim vier, eu não quero descobrir que só sabia ficar sob ameaça. Quero saber ficar sob lista também. Caneca rachada vai comigo. Mantra também. Brad: eu quero o fora se precisar. Kaio: a janela continua no inventário, sem posse, com desejo lento. Pri: a cadeira fica até o depois. Lia, Nando: mesa. Eu voto em lutar mais. Sem salvador. Com balanço. Com a verdade de que ser feliz de verdade, se vier, vai ter que caber entre a sulfite e o prazo.

Lia escreveu na folha, embaixo, letra firme: *DECISÃO — lutar o prazo restante; aceitar fim se o papel ganhar; não mentir na mala; revisitar a lista.* Colou de novo na geladeira. O ímã azul segurou a borda. Adultos, por favor.

O inventário pediu corpo de tarde. Abrimos armários como quem abre peito. Contamos pratos rachados, panos de prato desbotados, uma caixa de ferramentas incompleta, o sabonete da Pri ainda no box, o verniz do Nando, a pasta preta da Lia, as camisetas do Brad, minhas chinelas, o croqui do meu rosto que Nando dera no aniversário, a página em branco do crédito Joe. Cada objeto ganhava destino falado: fica / vai / vende / doa / espera. Eu ia dizendo os nomes como quem reza terço laico — panela, copo, extensão, capa de chuva, bilhete seco do chuveiro, vela torta, chaveiro, envelope, carta, comprovante, lona, balde, ímã, caneca. A casa ouvia. Brad embalou em saco o que era só dele e desfez o saco em seguida — ensaio de mala sem partida, regra da mala junto praticada em silêncio. Lia separou o envelope da demissão e a carta pra mãe; pôs os dois de volta na gaveta das colheres, lado a lado, inventário de não ditos; o quase enviar latejava nela como latejava em mim a nota do celular. Nando filmou um minuto da lista na geladeira pra se a tela precisar de legenda depois — “arte documental de gente com medo”.

No meio do inventário, o grupo da casa pingou mensagem da Pri: *mãe perguntou se eu volto pra ficar. eu disse que ainda tenho cadeira em SP. isso é verdade?* Respondi em voz alta antes de digitar, pra mesa ouvir: é verdade. Digitei: *é verdade. inventário hoje. tua cadeira tá na lista como suspenso, não como baixa. luta em curso.* Ela mandou um ok. O buraco ganhou linha na sulfite: *Pri — suspenso ativo.*

Kaio tocou a campainha no meio da contagem. Entrou quando abrimos. Viu a folha. Não riu. Não fez discurso de vizinho salvador. Ofereceu o que tinha de novo: braço pra carregar se viesse o dia, Gol da mãe, e a devolução opcional da lona — pode ficar enquanto o teto for argumento. Ficou a lona. Ficou ele cinco minutos. Bebeu água no copo que Nando ofereceu. Olhou a cadeira vazia. Olhou pra mim e pra Brad sem pedir que a geometria se resolvesse na frente da lista.

— Vizinho também entra em inventário? — perguntou, torto e leve, o mesmo homem da UPA, do bolo, da lona, da janela.

— Entra como janela — eu disse. — Como lona. Como hospital leve. Como doce de leite industrial. Como desejo lento sem pressa de quadro. Sem posse. Com verdade. Com o ciúme e a gratidão do Brad já nomeados, pra não virar segredo molhado de novo.

Ele assentiu. Brad assentiu — a maturidade suja cabia à luz do dia também. A trégua externa da casa incluía isso: rivais possíveis virando linha na sulfite. Kaio foi embora. A janela depois ficou mais aberta — um palmo a mais, inventário de ar entre sobrados.

No fim da tarde fizemos a conta dura na mesa. Números sem maquiagem. O que entrava se Lia tivesse entrevista de verdade. O que entrava se eu fechasse um freela dos três prometidos. O que entrava se Nando vendesse a tela — corpo sem rosto em janeiro, quem compra medo alheio?. O que saía se o senhorio topasse acordo. O que saía se não. O depósito imaginário. O reajuste possível. A segunda do Mel. O gás. A voz da Lia guiava; a minha rezava os totais; a do Brad confirmava o que podia apertar no app sem sumir; a do Nando dizia o que a arte não pagaria a tempo. A decisão não veio em milagre: veio em prazo interno nosso, colado ao prazo externo. Lutar mais oito dias com tudo que a lista nomeava; no nono, se o papel ganhasse, aceitar o fim sem nos destruirmos na porta nem transformarmos um ao outro em vilão da mudança. Oito era número de cansaço e de método, não de mística. Serve.

— Oito — repetiu Lia. — Sem romance. Com revisita à lista a cada dois dias. Pri no grupo. Kaio na contingência de carro. Mel fora da veia do aluguel. Joe, você lidera o inventário falado se a gente entrar em pânico. Você tem voz de reza. A casa obedece reza melhor que grito. Brad, você não renegocia dignidade pra salvar aparência. Nando, água. Acordo?

— Acordo — ecoamos, cansados, adultos, inventariados.

Eu aceitei o ofício estranho. Aceito ofícios estranhos nesta casa desde o envelope pardo, desde a trégua, desde a UPA. Aceitar inventário era só mais um.

À noite, sozinho um instante na cozinha depois do miolo de pão e do ovo, reli a folha inteira em voz baixa. Mesa. Cadeira. Dívida. Quem fica. Caneca. Janela. Buraco. Oito dias. Brad veio por trás e encostou o queixo no meu ombro — gesto doméstico demais pra cliffhanger, necessário demais pra desistir, o mesmo da noite antes da chuva suja.

— Se a gente perder a casa — ele começou.

— A gente não se perde por automáticamente — eu completei, eco da noite suja. — Inventário serve pra isso: saber o que é parede e o que é gente. Você não é parede. Eu também não. A gente é a parte que anda. A lista fica. A gente, se precisar, anda com ela no bolso.

Beijo na geladeira, papel entre nós e o frio do motor. Continua ensaio. Continua lista. Continua o balanço sem feliz-fácil: lutar X dias, aceitar fim se preciso, não mentir na mala, não ser o primeiro a ir embora só pra fugir da folha. Continua a ansiedade de abandono, agora com colunas e destino falado — menos monstro, mais item.

Antes de dormir, acrescentei linhas à nota *não enviar*:

*Inventário na geladeira. Móveis. Dívidas. Quem fica. Eu contei objetos como oração. Decisão: lutar mais oito. Aceitar fim se o papel ganhar. Brad fica. Kaio janela. Pri suspenso ativo. Lia carta na gaveta. Nando tela e água. Continua.*

Salvei. Não enviei. Olhei a sala: a casa respirava diferente com a lista grudada — mais adulta, mais exposta, menos romance de sobrado eterno, mais quarto de encontro com as luzes acesas em cima da bagunça. O balde no banheiro. A mancha. A cadeira vazia. A tela com sombra no peito e a outra cadeira pintada secando. Eu pensei em Helena e ensaiei a frase: hoje eu inventariei o abandono antes que ele me inventariasse. Soa bem. É só metade. A outra metade é que inventário também é cuidado — saber o nome das coisas pra não deixá-las morrer sem testemunha, saber o nome das pessoas pra não transformá-las em móvel.

Deitei. Brad já dormia. A respiração dele inventariava o quarto sem saber. Eu fiquei acordado ouvindo o sobrado — canos, toldo, um ônibus na Augusta, o silêncio onde a Pri ria, a janela do Kaio talvez ainda entreaberta. Oito dias. Papel branco. Folha na geladeira. Santa Cecília, indiferente e necessária, cobrava o balanço com umidade e com a promessa — ainda não furada por completo — de que ser feliz de verdade, se viesse, viria também assim: contando objetos como oração, decidindo ficar sem garantia de milagre, no segundo andar de um sobrado queer em ameaça de venda, com a lista sob os ímãs verde e azul e a gente, feridos e nomeados, ainda ali enquanto o prazo, enfim, encontrava um número nosso colado ao dele — oito dias de luta adulta, sem salvador, com a geladeira ronronando como se viesse abaixo do inventário inteiro e mesmo assim sustentasse, por enquanto, o frio das sobras, o ovo de amanhã, e a folha onde a casa, enfim, se lia em voz alta pela boca de um homem de trinta e nove anos que aprendera a rezar panela e dívida sem pedir que o teto fosse eterno.