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Sentir também é um ato de coragem.

Livros Quarto de Encontro

Capítulo 21 · 13 min

Despedida parcial

A manhã depois da chuva suja chegou com cheiro de mofo e de decisão. Eu acordei antes do relógio, a boca com gosto de água da torneira e a mão ainda no peito do Brad — ensaio que dormira por cima da coberta e agora pedia café. Santa Cecília amanhecia lavada pela metade: asfalto escuro, toldo pingando o resto, a mancha do teto do banheiro fotografada e ainda úmida. Desci. O terceiro degrau rangeu sob o meu peso como se a madeira também quisesse perguntar quem faltava. Na sala, a mochila da Pri não estava mais no canto.

O buraco começou assim: objeto sumido, ar diferente, o zíper que eu tinha aprendido a ler pela metade agora fora do campo. Fui à cozinha. O ímã verde e o azul seguravam o papel branco do senhorio e a lista torta da proposta. Café ralo no fogo — Lia. Ela me olhou sem precisar perguntar. Vinte e nove anos, demissão conhecida, batom ausente, a síndica à força com o rosto de quem já tinha feito a conta do adeus antes do Uber.

— Ela tá no quarto — disse. — Fechando de verdade. Pediu carro pra rodoviária. Interior. Mãe. Disse que avisa. Disse que não é sumiço. Disse que volta depois, se a casa aguentar e se ela aguentar. Despedida parcial com hora marcada.

A frase sentou no peito como segunda UPA. Eu subi o corredor estreito. A porta do quarto da Pri estava aberta. Ela dobrava uma camisa com cuidado de quem não quer que o tecido delate o medo. A mochila — agora mala de mão mais uma sacola de mercado com alça frouxa — ocupava a cama. Documento. Carregador. Foto da mãe dobrada. Chiclete. Uma meia seca que sobrevivera à chuva. O corpo dela ainda na casa; a decisão, não. O ventilador rangia. Longe, um ônibus na Augusta lembrava que a cidade segue mesmo quando a república rachava.

— Joe — ela falou sem virar de imediato. O sotaque saiu mais puxado, como na crise. — Eu falei que avisava. Tô avisando. Não é pra sempre. É pra... não explodir aqui dentro enquanto o prazo come a gente. Minha mãe cabe. O ex cabe, o que é pior. Eu preciso de chão rachado que seja meu por sangue, não só por aluguel. Quinze dias. Eu vivo parte deles longe. Se a gente conseguir ficar, eu volto. Se não... a gente se encontra na planilha do luto.

Eu encostei no batente. A ansiedade de abandono, aquela velha conhecida que Helena já tinha nomeado em sessão, subiu pela garganta com gosto de metal. Quis pedir pra ela ficar. Quis ser o tipo de homem que segura mala e mente que a casa é eterna. Quis transformar o plantão da Augusta em argumento de permanência. Não fui. Trinta e nove anos me ensinaram, à força, que segurar demais também é uma forma de sumir com o outro.

— A gente carrega até o carro — eu disse. — Sem teatro. Sem vilania. Você não é a primeira a ir embora se a gente te acompanha até a porta. Isso importa. Pra mim importa. Mantra meu: não ser o primeiro. Hoje o mantra cabe em escolta.

Ela virou. Olho úmido sem choro completo — o mesmo do papel branco. Abraçou. Cheiro de shampoo barato e de Augusta velada, de café de garrafa térmica e de medo honesto. Brad apareceu no corredor, camiseta do avesso, leu a cena, não pediu tradução. Passou a mão no cabelo — gesto de app e de ensaio — e perguntou se precisava de trocado pra água na viagem. Pri aceitou uma nota sem drama. Nando veio com a gaze já quase sumida no supercílio, copo d'água na mão, a sobriedade intermitente firme naquele turno. Lia trouxe um envelope pequeno — gorjeta dobrada, o que a casa podia dar sem fingir riqueza.

— Pra passagem e pra não dever carinho — Lia falou. — Sem planilha. Só isso.

Pri aceitou. No atelier, a tela do corpo sem rosto olhava de cima; Nando murmurou que ia pintar um espaço vazio na composição — cadeira sem pessoa, sem drama, só assento com luz. Kaio, do outro lado da rua, abriu a janela exatamente na hora em que a mala atravessou a sala. Acenou. Não veio. Vigilância afetiva em modo despedida: presença sem posse, desejo lento que respeitava o rito. Eu acenei de volta com a mão que não carregava alça. O triângulo, naquela manhã, era geometria de testemunhas, não de disputa.

O carro do aplicativo parou na frente do sobrado com a impaciência digital de sempre. Empurramos a mala. O toldo pingou num ombro. Pri subiu. Na janela do carro, o rosto dela pareceu mais jovem e mais velho ao mesmo tempo — plantão e filha, gorjeta e ex, casa e interior.

— Depois — disse. — Sem mentira de sempre. Depois se der. Vocês lutam. Eu respiro. Não some estilo Mel. Não some estilo app. Mensagem quando chegar. Vocês também mandam. Buraco dos dois lados.

— Mensagem — ecoamos, cansados e fiéis.

O carro virou a esquina. Santa Cecília engoliu a placa. A casa sentiu o buraco no mesmo segundo: o corredor mais largo, o banheiro menos disputado, o silêncio onde deveria estar o riso nervoso entre um plantão e outro. Eu fiquei na calçada um minuto a mais do que o necessário, contando respiração até quatro, até o número virar só ar sujo de avenida. Brad pôs a mão nas minhas costas, ainda com memória da chuva suja. Kaio na janela, caneca na mão, assistindo o vazio com a gente. Ninguém fechou nada. A despedida parcial pediu janelas abertas.

Voltei pra dentro como quem volta de enterro leve. A palavra é feia; a sensação, precisa. Despedida parcial não enterra — suspende. Na cozinha, o lugar dela na mesa ficou vazio de propósito. Ninguém ocupou. Eu quase puxei a cadeira pra longe e desisti: apagar o lugar era mentira. Lia escreveu no caderno: *Pri — fora, com aviso. Contingência ativada. Sem vilania.* Eu lavei a caneca rachada só pra ter ofício. O calcário novo da noite suja ainda branqueava a borda. O bilhete encharcado *adultos, por favor* tinha secado torto no azulejo; a tinta escorrida parecia mapa.

— Alguém mais? — Nando perguntou, direto demais, o pintor sem filtro. — Porque se a Pri foi, o medo contagia. Eu posso dormir em sofá. Já falei. Não quero. Mas posso. A tela também pode viajar. Tela viaja mal. Eu viajo pior.

— Não agora — Lia cortou. — Um por vez. A casa não aguenta despedida em série hoje. Você fica. Brad fica. Joe fica. Eu fico. A gente inventaria o resto amanhã. Hoje a gente sente o buraco sem tapar com discurso. Sem transformar a Pri em vilã da planilha. Ela foi honesta. Honestidade também dói no orçamento afetivo.

Brad olhou pra mim. O ensaio latejava inteiro: laje, porta do Mel, carta não enviada, madrugada de corpos, bolo ruim, chuva, sexo quieto, ciúme e gratidão nomeados sob a mesma toalha. Agora, buraco de Pri. Ele falou baixo, só pra mim, na pia, enquanto a torneira pingava um metrônomo doméstico:

— Eu fico. Mesmo se a mala aparecer pra mim também. A gente decide a mala junto. Regra nova ainda vale. Sem sumir. Sem te usar de teto. Você não é meu aluguel emocional — lembra? Continua valendo com cadeira vazia.

— Continua — eu repeti. — Eu tô com medo de abandono que nem é só sobre você. É sobre a cadeira. Sobre o plantão que não volta hoje. Helena ia dizer que eu estou misturando teto com afeto de novo. Estou. A casa ensina. O prazo ensina mais alto.

Sentei no chão da sala, onde a mochila vivera. O chão ainda tinha a marca fantasma do tecido, ou eu inventava a marca pra ter evidência. Contei a respiração. A janela do Kaio seguiu aberta. Ele não fechou depois do carro; ficou ali, testemunha de beira, cabelo ainda com memória da lona e da chuva. Pensei em acenar e pedir que viesse tomar o café ralo. Não pedi. O dia pedia buraco, não triângulo resolvido. Desejo lento também sabe esperar fila. Brad passou, viu meu olhar pra janela, aguentou — a maturidade suja da noite anterior cabia de novo num gesto: mão na minha nuca, sem interrogatório.

À tarde, a casa tentou normalidade e falhou com elegância. Café demais. Silêncio demais. Eu abri a gaveta das colheres: envelope da demissão da Lia, carta pra mãe ainda não enviada, uma colher torta, o comprovante dobrado da primeira parcela do Mel que Brad resgatara da calça suada. Objetos de quem ainda está. A ausência da Pri não cabia em gaveta; cabia no ar, no sabonete que ela esquecera no box, no ímã azul que ela mesma trouxera de presente no meu ciclo, escrito à mão *adultos, por favor*. Toquei o ímã. Adulto, naquela tarde, era quem deixava partir sem transformar partida em traição.

Lia ligou pro senhorio — atualização de vazamento fotografado, proposta incompleta reforçada, menção educada a inquilina temporariamente fora sem desocupação do contrato coletivo. Ele ouviu com a mesma voz de quem come bem. Falou de prazo, de venda, de sobrinho, de “sem garantia”. Não cedeu. Não acelerou. Quinze dias seguindo, agora com um corpo a menos na casa e o mesmo valor no papel. Tempo ruim. Tempo nosso.

— Comprou nada novo — ela disse ao desligar. — Manteve o precipício. Serve. Eu quase enviei a carta pra minha mãe hoje. Quase. A Pri ir embora puxa a gente pra porto de sangue. Eu resisto mais um dia. O não enviar ainda é idioma.

Nando desceu ao atelier e pintou de fato o espaço vazio: uma cadeira de espaldar torto, sem corpo, luz caindo no assento como se alguém tivesse acabado de se levantar. Chamei aquilo de retrato da despedida parcial. Ele não discordou. Bebeu água. Passou o dedo na sombra do peito da tela maior — a ameaça ainda ali, venda e abandono na mesma composição. A arte, naquela casa, seguia traduzindo o que a planilha não cobria.

Brad saiu pra um aplicativo curto — prometeu voltar antes do jantar, celular ligado, localização à mostra sem eu pedir. Eu odeiei precisar disso e amei que ele oferecesse. Quando a porta fechou atrás dele, a ansiedade subiu pelo peito como água no atelier; quando a mensagem *descendo na esquina* chegou, baixou. Ensaio de confiança sob ameaça. Continua. Eu fiquei na varanda nesse intervalo, olhando o toldo, ensaiando frases pra Helena: hoje alguém foi embora com aviso e mesmo assim meu corpo reagiu como a um sumiço. Aviso não anestesia abandono; só o torna partilhável.

No fim da tarde, Pri mandou mensagem: *cheguei. mãe fez café. ex não está na casa hoje. eu tô viva. buraco aqui também. vocês?* O grupo torto respondeu em áudios curtos, o tipo de afeto que cabe em dados móveis e em garganta fechada. Eu gravei: *buraco aqui. casa respirando torto. a gente luta. depois, se der. a cadeira continua sua se você quiser.* Salvei o áudio na nota *não enviar* também — hábito de república de rascunhos. Kaio mandou mensagem só pra mim, rara: *vi o carro. se precisar de Gol pra busca depois, fala. sem pressa de nome.* Respondi obrigado. Sem pressa. Com buraco.

À noite, jantamos ovo e miolo de pão no lugar do prato dela. Ninguém fez discurso longo. Lia falou da resposta fria do currículo — retornaremos ainda sem retorno — e da tentação da carta. Brad falou da segunda parcela do Mel: renegociara prazo curto sem sumir, mensagem sem floreio, porta que por enquanto não tocaria; a casa vinha primeiro na quinzena, como prometera sob a chuva. Nando falou da cadeira pintada. Eu falei do buraco e do mantra. Nomear ajudava. Nomear não enchía a cadeira. Alguém — eu — quase sugeriu que Nando ou Lia fossem os próximos “por se”; a frase morreu na boca. Um por vez. Lia tinha razão.

Depois, no quarto, Brad e eu deitamos de novo por cima da coberta. Porta entreaberta — regra. Ele confessou na voz de quem fala no escuro mesmo com luz amarela:

— Quando o carro saiu, eu pensei em ir embora também. Um segundo. Só um. Depois pensei em você na calçada. Depois na regra da mala junto. Fiquei. O ciúme do Kaio ontem e a gratidão — ainda tão aqui. A Pri ir embora misturou tudo. Medo de fila na rodoviária. Medo de ser o próximo. Medo de a gente só funcionar sob o mesmo hidrômetro.

— Eu também pensei em fila — admiti. — Em ser o primeiro. Em não ser. Em Helena perguntando pra onde vai o medo se as paredes forem vendidas. Hoje o medo foi pra cima da mala. Amanhã a gente inventaria — móveis, dívidas, quem fica. Hoje a gente deixa o buraco aberto sem jogar terra de mentira. Continua ensaio. Continua eu pedindo que você fique sem te transformar em parede.

Beijo com gosto de ovo e de ausência. Mão na marca do costado. Cicatriz do cotovelo lembrada com a boca. Continua sem nome oficial. Continua com a certeza adulta de que despedida parcial é o nome possível do quase — não o feliz-fácil, o honesto.

Antes de dormir, olhei a sala uma última vez. Cadeira vazia. Ímãs. Papel branco. Sabonete no box. No outro lado da rua, a janela do Kaio ainda acesa, cortina entreaberta, ele talvez lendo ou só existindo em paralelo ao nosso luto doméstico. Acenei no escuro mesmo sem saber se ele via. A casa, ferida e inadimplente, aprendeu um espaço a mais no peito. Eu escrevi na nota sob o lençol:

*Pri partiu de fato. Carro. Rodoviária. Mãe. Depois, se der. Buraco na casa. Brad ficou. Alguém quase ameaçou ir — Nando falou sofá, eu pensei fila. Kaio na janela. Eu não fui o primeiro. Continua.*

Salvei. Não enviei. Deitei. Ouvi a respiração do Brad e, por baixo dela, a respiração maior do sobrado — agora com um pulmão a menos, ainda assim respirando, o balde no banheiro vazio como evidência de crise atravessada e a cadeira na tela do Nando secando tinta no térreo. Santa Cecília, indiferente e necessária, cobrava a despedida com silêncio no corredor e a promessa torta de que ser feliz de verdade, se viesse, teria que caber também no adeus incompleto, na mala que volta ou não, no segundo andar queer onde ninguém fingiu que a cadeira cheia era eterna, enquanto o prazo de quinze dias, surdo à rodoviária e ao interior, seguia contando a partir do buraco iluminado pela lâmpada amarela e pela janela aberta do vizinho que não veio, só ficou, vigilante e paciente, do outro lado da rua ainda molhada de chuva suja e de ausência dita em voz alta.