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Sentir também é um ato de coragem.

Livros Quarto de Encontro

Capítulo 20 · 12 min

Noite suja de chuva

A chuva veio suja. Não a miúda do toldo: a grossa, a de janeiro paulistano que lava pouco e espalha muito, arrasta avenida, faz boca de lobo engasgar, transforma Santa Cecília em corredor de água escura. Começou no fim da tarde, depois da visita ao senhorio, e até as nove já tinha virado argumento. O sobrado pingava em lugares novos. A laje reclamava. O atelier, no térreo, ganhou uma poça perto da tela — Nando xingou a cidade e afastou o cavalete com cuidado de quem salva peito pintado de afogamento. Eu subi e desci com baldes. Brad enroscou panos. Lia anotava no caderno: *vazamento, dia X, mais um item na proposta*. Pri pôs a mochila em cima da cadeira, longe do chão molhado — zíper ainda na metade, agora protegido da chuva como se água pudesse decidir por ela.

A cidade lá fora cheirava a esgoto curto e asfalto quente resfriado à força. Desejo e medo pediam a mesma temperatura. Eu olhava a janela do Kaio: luz acesa, cortina grudada de umidade, ele aparecendo de vez em quando com caneca. Acenei. Ele acenou. O Gol da mãe não saía da garagem; noite de ninguém dirigir. Hospital leve, aniversário, quase fim — tudo empilhado sob o mesmo telhado que agora vazava. A casa sob água. Segredos molhados.

— O banheiro do segundo — Brad chamou. — Tá vindo pelo teto.

Fomos. Uma mancha escura se espalhava no reboco. Pingos ritmados no box. O bilhete *adultos, por favor* encharcou na borda e escorreu tinta. Eu ri sem humor. Adulto, naquela noite, era quem segurava balde sem gritar com a hidráulica. Colocamos a caneca rachada sob o pingo mais grosso — ironia doméstica — e um balde sob os outros. A trégua com o senhorio não incluía telhado; o prazo de quinze dias não estancava água.

No começo da chuva, antes da luz cair, eu ainda tentei normalidade: passei pano na mesa, conferi o ímã, reli de relance o papel branco do senhorio como quem confere se o medo molhou a tinta. Não molhara. Formalidade é à prova d'água; gente não. Brad chegou atrás de mim e encostou o queixo no meu ombro — gesto novo demais pra ensaio antigo, doméstico demais pra cliffhanger. Aceitei. A janela tremeu com vento. Longe, um trovão seco, típico de cidade que não tem horizonte: só concreto e susto.

Lia gritou do térreo que a água entrava pela porta dos fundos em filete. Descemos de novo. Vassoura. Rodo. A pobreza íntima da república em modo operação: quatro adultos e um pintor empurrando água pra rua como se rua fosse solução. Pri ria nervosa entre um empurrão e outro; o sotaque saía mais forte quando a crise pedia comicidade. Nando falava com a tela — “não molha, não molha” — como se pintura ouvisse. Eu pensei em Helena e no absurdo de narrar vazamento em sessão. Frase minha possível: eu cuido de telhado alheio pra não olhar o próprio prazo.

A luz caiu às dez e dez. Santa Cecília inteira, ou o nosso quarteirão, ou só o sobrado — impossível saber no escuro. Velas tortas do aniversário reapareceram. Nando trouxe lanterna de celular. A casa virou sombra e voz. Medo prático: geladeira, bomba, o que estraga. Medo outro: no escuro o cliffhanger do despejo crescia. Eu sentei no corredor estreito com a coluna na parede. Brad sentou ao lado. Nossos joelhos se tocaram. Quase. Depois de verdade. O ensaio pediu corpo no meio da chuva suja.

— Sobe comigo — ele murmurou. — Só um pouco. A casa aguenta balde sozinha um minuto.

— A casa não aguenta sozinha — eu disse. — Mas eu preciso de você do mesmo jeito.

Fomos ao quarto dele. Porta entreaberta — regra. A chuva batia forte na janela torta. Sem luz, só o celular baixo. Tiramos a camisa não por pressa pornográfica: por calor úmido, por pele pedindo pele, por ameaça de fim pedindo prova de agora. O sexo foi intenso e quieto, o tipo que a casa sem energia permite — menos riso de cama rangendo, mais respiração contada, mais mão na boca pra não virar grito. Suor e chuva pareciam a mesma coisa. Eu tracei de novo a marca no costado. Ele beijou a cicatriz do cotovelo. Desejo com medo dentro; medo com desejo por cima. Continua ensaio. Continua sem nome oficial. Continua com a certeza de que, se a mala viesse, a gente teria tido pelo menos a noite suja inteira.

No meio, parei. Perguntei com a voz:

— Se a gente perder a casa...

— A gente não se perde junto por automáticamente — ele completou, honesto demais. — Mas eu quero tentar. Sem sumir. Sem te usar de teto. Você não é meu aluguel emocional.

A frase molhou mais que a chuva. Beijei a boca dele com gosto de água da torneira e de chocolate fantasma do bolo. Seguimos. O ápice veio baixo, longo, quase solene. Depois ficamos abraçados ouvindo o balde no banheiro encher — ploc, ploc — metrônomo de crise. A luz não voltava. A cidade lá fora seguia suja.

Depois do sexo quieto, ainda no escuro, falei do aniversário — das velas tortas, do medo de soprar, do Kaio na mesa, do crédito de um dia sem observação que eu ainda não usara inteiro. Brad ouviu. Contou que pagara a primeira parcela do Mel no caixa eletrônico sob chuva miúda dias antes, e que o comprovante ainda estava no bolso da outra calça, molhando de suor se não de água. Dívida e desejo. Papel e pele. A casa ensina a não separar.

— Helena ia dizer pra eu não transformar você em prova de que eu existo — eu murmurei. — Hoje eu tô transformando a chuva em prova de que a gente existe. É diferente. Ou é a mesma covardia com clima.

— É a gente — ele disse. — Covardia compartilhada já é menos covardia.

Alguém bateu na porta do sobrado. Não interfone: batida molhada, mão. Eu vista a camiseta do avesso, Brad a bermuda, descemos. Kaio estava na soleira encharcado, cabelo colado, sacola com velas e um rolo de lona barata.

— Vi a luz apagar no quarteirão — disse. — Trouxe isso. E... queria saber se o atelier alagou de verdade.

Entrou. Nando recebeu a lona como sacramento. Estendemos sobre a área da poça. Pri acendeu mais vela. Lia ofereceu toalha. Kaio ficou. A geometria do triângulo sentou na sala às escuras: eu, Brad, o vizinho molhado, sem posse, com presença, com a casa pedindo mãos demais pra sobrar ciúme. Trabalhamos. A lona ajudou. O balde encheu; esvaziamos na privada. A chuva não parava. Desejo lento virava trabalho braçal; trabalho braçal virava intimidade outra.

Num intervalo, na cozinha à luz de vela, Kaio falou baixo só pra mim enquanto Brad ajudava Nando:

— Eu não vim cobrir a noite de vocês. Vim cobrir o telhado. Se sobrar olhar, a gente vê depois. Sem pressa de nome. Com pressa de água.

— Obrigado — eu disse. — Pela UPA. Pelo bolo. Pela lona. Pela honestidade. O ensaio com ele continua. A janela também. Eu sei que é torto. Eu tenho trinta e nove anos pra torcer.

Ele sorriu de canto, água escorrendo do cabelo.

— Torto é o sobrado. A gente só habita.

Brad voltou. Leu o ar. Não pediu tradução. Passou a mão nas minhas costas, molhadas de chuva trazida na camisa, e aceitou o triângulo como quem aceita vazamento: não ama, gerencia, não foge. A maturidade suja daquela noite cabia num gesto.

Enquanto a lona ia no chão do atelier, eu observei Kaio de verdade — não só desejo de janela, corpo em ofício: joelho no cimento úmido, mão firme, jeito de quem já enfrentou infiltração em outro sobrado, em outra mãe, em outra história. Brad passou ao lado e os dois trocaram ferramenta sem falar. A trégua externa da casa incluía isso: rivais possíveis virando equipe de emergência. São Paulo ensina alianças tortas. Santa Cecília confirma.

Pri, a certa altura, pediu pra eu olhar a mochila com ela. Abrimos um pouco mais o zíper à luz do celular: roupa, documento, um carregador, uma foto dobrada da mãe no interior, um chiclete. Inventário de fuga possível. Fechei até a metade de novo, cumplicidade.

— Se eu for, aviso — repetiu. — Sem sumir estilo app. Sem Mel na porta às avessas.

— Se você for, a gente carrega a mala até o ônibus — eu disse. — Despedida parcial não precisa ser traição. Precisa ser dita.

Ela assentiu. A chuva respondeu no telhado com um tambor mais fundo.

Perto da meia-noite a luz voltou num solavanco. Lâmpadas amarelas. O ímã verde e o azul. A geladeira roncou. A casa piscou como quem acorda de desmaio — hospital leve em escala doméstica. Kaio se despediu, lona instalada, velas sobrando. Na porta, o abraço nele foi curto; o olhar, longo. Brad viu. Aguentou. Eu aguentei. Santa Cecília seguia chovendo.

No intervalo em que a luz ainda não tinha voltado, Lia contou baixinho — só pra quem estava na cozinha às velas — que a carta pra mãe continuava na gaveta das colheres, e que sob ameaça de despejo a tentação de enviar crescia. “Mãe, perdi o chão de novo.” Não enviaria naquela noite. Escrever de novo, talvez. O não enviar seguia sendo o idioma da casa: Joe, Lia, Brad, agora Pri com o zíper. República de rascunhos sob chuva.

Eu pensei no Mel só um segundo — se a segunda parcela atrasasse por causa do aluguel, a porta poderia tocar de novo. Brad, como se lesse, falou sem nome:

— A parcela de vocês — a da casa — vem primeiro nessa quinzena. A outra eu renegocio sem sumir. Aprendi com a porta.

Aprendizado molhado. Anotei no peito.

Quando a casa enfim baixou o ritmo, Lia chamou reunião rápida na mesa — não de senhorio, de água.

— Amanhã a gente fotografa o vazamento pra proposta — disse. — Ameaça de venda encontra ameaça de telhado. Talvez ajude. Talvez não. Pri: a mochila.

Pri olhou o canto. A mochila estava lá, zíper na metade, agora com uma meia seca à mostra.

— Eu não vou embora essa noite — falou. — Mas também não fecho o zíper. Quinze dias. Eu vivo os quinze com a mala pronta e o corpo aqui. Isso é honesto. Desculpa se assusta.

— Assusta — eu admiti. — E cabe. Despedida parcial. A gente nomeia pra não virar sumiço.

Nando bebeu água. Brad assentiu. Lia escreveu: *Pri — contingência visível. Sem vilania.* A planilha engolia chuva e medo.

Eu e Brad voltamos ao quarto depois. Não pra sexo de novo: pra secar. Toalha. Camiseta seca. A porta entreaberta. Ele confessou, na voz de quem fala no escuro mesmo com luz:

— Eu tive ciúme do Kaio na cozinha. Tive. E tive gratidão. As duas coisas. Se a casa acabar, eu não quero descobrir que a gente só funcionava sob o mesmo hidrômetro. Quero... tentar fora também, se precisar. Sem pressa de quadro. Com verdade.

— Eu também — respondi. — Fora ou dentro. Sem ser o primeiro a ir embora. Sem te pedir pra apagar a janela. Sem apagar a cama. Noite suja ensina geometria.

Dormimos mal e juntos — por cima da coberta, de propósito, pra não fingir que o dia seguinte não existia. A chuva afrouxou de madrugada. O balde no banheiro ficou meio cheio, parado, evidência. Eu acordei uma vez e fui olhar a sala: a mochila da Pri ainda lá, zíper na metade, despedida parcial em tecido. No atelier, a lona brilhava sob a lâmpada. A tela do corpo sem rosto estava seca. Luz e sombra no peito. Nando dormia numa cadeira, copo d'água na mão frouxa — sobriedade intermitente vencendo uma noite.

Voltei. Brad murmurou meu nome. Eu disse tô aqui. A chave torta no bolso da calça no chão. O papel branco do senhorio ainda na gaveta improvisada. Quinze dias. Chuva suja. Segredos molhados: o ciúme admitido, a mochila à mostra, o triângulo sem posse, o sexo quieto, a proposta incompleta, o mantra.

Antes do sono fechar, abri a nota *não enviar* sob o lençol:

*Chuva suja. Vazamento. Luz fora. Kaio com lona. Brad com ciúme e gratidão. Pri com mala pronta e corpo presente. Despedida parcial nomeada. Continua ensaio. Continua prazo. Continua eu ficando.*

De manhã cedo — se é que a noite suja teve manhã — a casa cheirava a mofo aceso e café ralo. O balde no banheiro foi esvaziado. A caneca rachada voltou à pia com um filete de calcário novo. Lia fotografou a mancha do teto. Nando esticou a lona pra secar no varal improvisado. Pri moveu a mochila um palmo, ainda aberta na metade, visível demais pra ser esquecida e quieta demais pra ser ultimato. Brad beijou minha têmpora na cozinha, na frente de todo mundo, sem discurso. Kaio não apareceu na janela logo — dormia, talvez, merecido. O prazo de quinze dias seguia. A chuva virara garoa. A cidade, suja, começava o expediente.

Eu escrevi mais uma linha mental pra Helena: ontem a casa quase virou rio e mesmo assim ninguém foi o primeiro a ir embora. A mochila ficou. O ensaio ficou. O vazamento ficou, fotografado. Continua.

Salvei. Não enviei. Tela pra baixo. A cidade lá fora ainda pingava, menos brava. Santa Cecília, indiferente e necessária, cobrava a noite com água suja e a promessa — ainda não furada por completo — de que ser feliz de verdade, se viesse, viria também assim: debaixo de chuva, sob ameaça de venda, com balde no box e vizinho na soleira, com desejo e medo dividindo a mesma toalha, no segundo andar de um sobrado queer que ainda não acabara — ferido, molhado, desejante, com alguém de mala pela metade na sala — enquanto o quase fim, enfim, aprendia a atravessar a madrugada sem se tornar fim de verdade, só precipício iluminado de volta pela luz amarela, a caneca rachada no chão do banheiro cheia de pingos, e a gente, eu e ele, ainda ali, suados e lavados ao mesmo tempo, sem nome oficial, com a casa inteira ouvindo o silêncio depois da água.