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Sentir também é um ato de coragem.

Livros Quarto de Encontro

Capítulo 19 · 12 min

Quase fim da casa

O aviso chegou em papel, não em interfone. Estava sob a porta do térreo no fim da manhã, envelope branco sem pardo, letra de cartório barato ou de senhorio que aprendera a assustar com formalidade. Eu peguei porque desci primeiro — café, caneca rachada, o ímã azul ainda novo rivalizando com o verde. Li na escada. O terceiro degrau rangeu sob o peso da notícia. Palavras como *inadimplência*, *prazo*, *desocupação*, *negociação de venda do imóvel* se empilhavam sem poesia. O sobrado em Santa Cecília, o nosso, o da trégua e da UPA e do bolo ruim, estava sob ameaça real: atraso acumulado, condomínio inventado cobrado de novo, e a frase que seca a boca — *o proprietário avalia alienar o bem*. Quase fim da casa. Não metafórico. Papel.

Subi. A voz saiu rouca.

— Reunião. Agora. Cozinha. Todo mundo.

Brad apareceu de camiseta do avesso. Lia com a pasta. Nando com a gaze já menor. Pri de folga rara, cabelo molhado, celular tela pra baixo por milagre. Eu pus o papel no meio da mesa como se pusesse um corpo. Lia leu em voz alta, síndica à força, a demissão antiga ecoando em cada linha de despejo possível. Nando xingou baixo. Brad passou a mão no cabelo. Pri soltou um “não é possível” com sotaque puxado que era oração às avessas.

— Quanto falta no aluguel? — eu perguntei.

Lia abriu o caderno. A planilha da trégua, os trinta dias sem vilão, os números sem maquiagem. Havia atraso — não de novela, de gente. Duas parcelas parciais. O gás. O extra da UPA em Uber e café. A primeira parcela do Mel que Brad pagara em dia e que, mesmo assim, não enchia o envelope do senhorio. Transparência doía mais que mentira.

— A gente cobriu o que deu — ela disse. — Eu sem salário. Você freelance sumido. Brad com dívida externa. Nando com tela e pouco cache limpo. Pri com gorjeta. A conta não fecha desde novembro. Eu sabia. Eu adiei o pânico com trégua. O senhorio não assinou nossa trégua.

A frase rachou a cozinha. Eu senti o medo de abandono mudar de alvo: não era só Brad sumindo; era o teto. A casa como corpo coletivo ameaçado de alta. Hospital leve virava ameaça de alta hospitalar da própria moradia.

— Ele pode vender? — Brad perguntou. — Assim? Com a gente dentro?

— Pode tentar. Pode pressionar. Pode aceitar acordo. Pode ser blefe — Lia respondeu. — Eu ligo. Eu vou. Mas primeiro a gente decide se ainda somos um nós o bastante pra negociar juntos ou se cada um já tá com a mala na cabeça.

Silêncio. O ventilador. O toldo. A janela do Kaio entreaberta do outro lado, alheia e próxima. Eu pensei no aniversário — cobertura rachada, velas tortas, “se a casa aguentar”. A casa pedia resposta.

Pri falou primeiro, olho úmido sem choro completo:

— Eu posso voltar pro interior. Minha mãe cabe. O ex também cabe, o que é pior. Eu não quero. Mas posso. Essa é a verdade. Se a casa acabar, eu tenho chão rachado lá. Vocês...?

Nando bateu o copo d'água na mesa — sem quebrar, ênfase.

— Eu não tenho mãe com chão. Tenho atelier. Se perder o atelier, perco a tela. A tela é o que me mantém longe do cache o bastante pra fingir sobriedade. Eu posso dormir em sofá de conhecido. Posso. Não quero. Quero lutar o prazo.

Brad olhou pra mim antes de falar. O ensaio inteiro passou no olhar: laje, porta do Mel, carta, madrugada, bolo, nota no bolso.

— Eu posso apertar app. Posso atrasar a segunda parcela do Mel e odiar a mim mesmo. Posso pedir um mês ao... não. Não peço ao Mel. Peço à mesa. Eu fico se tiver onde. Se não tiver, eu... sumo de novo? Eu prometi não sumir. Então eu fico na briga. Sem salvador. Com medo.

Chegou minha vez. Frase minha. Helena latejou.

— Eu tenho medo de ser o primeiro a ir embora. Sempre tive. Hoje o papel quer que a gente vá embora junto. Isso é pior e mais justo. Eu não tenho plano B bonito. Tenho caneca rachada e mantra. Eu voto em negociar. Em reunião de emergência séria. Em não transformar o senhorio em vilão único e a gente em vítimas puras — a gente atrasou. Verdade. Também construímos trégua, hospital, festa. Isso vale argumento. Vale pessoa jurídica de afeto. Vale tentar.

Lia assentiu, rara.

— Então tentamos. Eu ligo agora. Vocês ouvem. Sem teatro. Sem grito. Se a trégua interna quebrar nesta mesa, a externa nem começa.

Ligou no viva-voz. O senhorio atendeu com voz de quem come bem. Ouviu. Falou de atraso, de venda, de “oportunidade”, de um sobrinho que queria o ponto pra outro uso — ou mentira, ou verdade, impossível saber. Deu quinze dias pra “regularizar o essencial” e trinta pra “proposta de saída amigável ou renovação com fiador”. Fiador. A palavra caiu como segunda UPA. Nenhum de nós era fiador do outro no papel; éramos só no peito.

— A gente volta com proposta — Lia disse, profissional de demissão reaproveitada. — Por escrito.

Desligou. A cozinha ficou pequena. Quinze dias. Trinta. Quase fim.

A briga veio depois, inevitável, pós-trégua rachando. Não por vilania: por pânico. Nando acusou a planilha de otimismo; Lia acusou o cache furado de furo no orçamento; Pri disse que cansava de ser a única com horário fixo; Brad bateu de frente comigo quando eu sugeri “cortar o que for luxo” e ele ouviu julgamento sobre o Mel. Eu ergui a voz — raro, feio, necessário:

— Luxo não é parcela de dignidade. Luxo é a gente se destruir agora e facilitar a venda. Trégua. Lembrem. Discordar não é despejo.

— Discordar é o que a gente tem — Lia rebateu, depois baixou. — Desculpa. Medo. Não é vilão. É medo.

A trégua sangrou e coagulo. Ninguém saiu batendo porta. Quase. Pri foi ao quarto e voltou. Nando desceu ao atelier e subiu. Brad ficou na pia lavando o que estava limpo. Eu conteve a vontade de escrever carta não enviada ao senhorio. Em vez disso, abri um documento coletivo no caderno: *proposta*. Valores possíveis. Quem podia adiantar o quê. Currículo da Lia como esperança com prazo. Extra de plantão da Pri. Venda de uma tela do Nando — “se alguém comprar corpo sem rosto em janeiro”. Eu prometi três freelas que ainda não existiam. Brad prometeu a segunda metade do gás e um app a mais sem sumir da mesa.

Números incompletos. Decisões incompletas. Cliffhanger de planilha.

— Isso não fecha os quinze dias inteiros — Lia admitiu. — Fecha uma conversa. Compra tempo. Tempo é o luxo real.

Kaio tocou a campainha no meio da tarde — tinha visto nossas caras na janela, o papel branco, a reunião pela geometria das cabeças baixas. Entrou quando Pri abriu. Ouviu o resumo. Não ofereceu milagre. Ofereceu o que tinha:

— Minha mãe conhece o senhorio de vista. Posso... perguntar sem perguntar. E se precisar de malas, carro, Gol. Sem dramatizar. Vizinho.

A oferta de mala doeu mais que a de intermediação. Mala é ensaio de fim. Eu agradeci. Brad agradeci. Lia anotou o contato como linha de contingência. Kaio ficou cinco minutos, bebeu água, olhou o ímã azul, sorriu torto pro meu ciclo ainda recente, e foi embora. A janela depois ficou entreaberta — vigilância afetiva, desejo lento em modo prático.

De manhã, antes da visita, a casa praticou normalidade falsa. Café ralo. Pão. O ímã azul e o verde segurando o papel branco como se formalidade pudesse ser doméstica. Eu vesti a camisa menos amarrotada. Lia passou batom — o primeiro desde a virada — e eu entendi o gesto: armadura. Brad revisou os números em voz alta uma última vez; a boca dele dizia valores e o olhar pedia que eu voltasse. Nando ergueu o copo d'água em brinde sem ironia. Pri escondeu a mochila atrás do sofá, zíper na metade, acordo silencioso comigo.

O escritório do senhorio ficava longe o bastante pra Uber doer e perto o bastante pra esperança barata. Sala fria, revista antiga, ar-condicionado no osso. Ele nos recebeu sem oferecer café. Lia falou a proposta: valores, prazos internos, compromisso coletivo, a venda como último recurso e não primeiro blefe. Eu fiquei quieto o tempo certo e falei o tempo certo — que a casa não era só atraso, era gente que carregou ferido até UPA e festejou com bolo ruim e ainda assim olhava planilha. Ele ouviu com cara de quem já tinha ouvido novela de inquilino. Não disse não. Não disse sim. Pediu os quinze dias “pra analisar” e “sem garantia de renovação”. Saímos com o mesmo cliffhanger, só que carimbado de presença.

Na calçada, Lia soltou o ar.

— Comprou tempo. Tempo ruim. Tempo nosso.

— Serve — eu disse. — Serve pra não empacotar hoje.

Voltamos. A casa recebeu o relato como quem recebe diagnóstico: não é alta, não é internação eterna; é observação. Brad abraçou Lia sem pedir licença — raro, necessário. Nando perguntou se podia pintar a noite inteira pra não beber; dissemos que sim, desde que a luz do atelier não virasse cache. Pri confessou a mochila pra mesa inteira. Ninguém julgou. A trégua, furada de manhã, ganhou ponto novo: medo com zíper também entra na planilha.

No fim da tarde eu passei no atelier. A tela do corpo sem rosto tinha ganhado sombra nova no peito — não luz só, sombra, como se Nando pintasse a ameaça. Comentei. Ele respondeu que venda de imóvel também é composição: excesso de poder no canto superior, inquilino cortado pela moldura. Rimos sem graça. A arte, naquela casa, sempre soubera traduzir o que a planilha não cobria.

À noite, a casa não jantou direito. Miolo de pão. Ovo. Silêncio. Eu fui à varanda. Santa Cecília uivava. Chovia miúdo de novo, preparando talvez a sujeira maior. Brad veio.

— Se a casa acabar — ele começou.

— Não acaba hoje — eu cortei. — Hoje a gente tem proposta incompleta e quinze dias. Cliffhanger. Eu odeio cliffhanger. Prefiro final feio a meio. Mas o meio é o que a gente tem. Fica no meio comigo.

— Fico. Sem ser o primeiro a ir embora. Mesmo se a mala aparecer. A gente decide a mala junto. Essa é a regra nova.

Beijo na varanda, gosto de medo e de pão. Continua ensaio. Continua casa — por enquanto. A ameaça real não sumia com boca; sumia com dinheiro que não tínhamos e com tempo que o senhorio medira em quinzenas.

Lia passou no corredor e falou sem parar:

— Amanhã eu vou no escritório dele. Vocês não vêm todos — parece turba. Eu e mais um. Joe, você. Cara de gente que observa e assusta menos. Brad fica com a planilha. Nando não bebe. Pri planta. Acordo?

— Acordo — ecoamos, cansados.

Antes de dormir, eu abri a gaveta das colheres. Envelope da demissão. Carta da Lia pra mãe — ainda não enviada. Pensei em pedir pra ela enviar agora: *mãe, posso voltar?* Cruel. Fechei. No celular, a nota *não enviar* ganhou linhas:

*Papel branco sob a porta. Venda. Quinze dias. A trégua sangrou e coagulou. Kaio ofereceu mala. Eu quase aceito o pânico. Não aceito. Proposta incompleta. Cliffhanger. Brad disse mala junto. Continua.*

Pensei em Kaio oferecendo mala e em como o desejo lento muda de função sob ameaça: de janela pra logística, de aceno pra contingência. Pensei em Mel — se Brad quebrasse a segunda parcela pra salvar o aluguel, o ex voltaria à porta? A casa colecionava portas. Pensei em Helena e ensaiei a frase pra sessão imaginária: eu estou com medo de ficar sem cenário. Meu abandono sempre precisou de paredes. Se as paredes forem vendidas, pra onde vai o medo? Pra cima de quem eu amo. Por isso a reunião. Por isso o nós.

Salvei. Não enviei. Deitei. Ouvi a casa em turnos de insônia: Pri mexendo em gaveta — será mala?, Nando andando no atelier, Lia calculando, Brad virando na cama. O quase fim não era fim. Era a noite mais longa desde a UPA. Janeiro cobrava com formalidade cartorial o que a festa tinha pedido em velas.

No meio da madrugada, acordei com sede e desci. Na sala, Pri estava sentada no chão com uma mochila aberta ao lado — não enchida, aberta, ensaio de partida. Me viu. Não fechou.

— Não é decisão — sussurrou. — É medo com zíper. Se eu fechar a mochila de verdade, eu te aviso. Hoje eu só... olho o que eu tenho. Por se.

— Por se — eu repeti. — A gente tem quinze dias de por se. Deixa a mochila aberta. Aberta ainda é ficar.

Ela sorriu torto. Fechou o zíper na metade. Deixou a mochila no canto, como ponto de suspensão. Voltei ao quarto com a imagem grudada: quase fim também é objeto no chão. Cliffhanger emocional com alça.

Brad murmurou quando deitei de novo:

— Ainda tá aí?

— Ainda. A casa também. Por enquanto.

— Por enquanto serve. Serve pra mim.

Apertei a mão dele no escuro. O papel branco dormia na mesa da cozinha sob o ímã — verde e azul — como terceira conta. Quase fim da casa. Decisões incompletas. A manhã viria com visita ao senhorio, números tortos, e a pergunta sem resposta batendo no peito junto com o mantra:

Ser feliz de verdade — se viesse, teria que vir também na ameaça, na reunião de emergência, na mochila pela metade, no ensaio de não ser o primeiro a ir embora quando o teto balança, no segundo andar de um sobrado queer em Santa Cecília que ainda respirava — ferido, inadimplente, inteiro o bastante — enquanto o prazo de quinze dias, indiferente e necessário, começava a contar a partir do silêncio daquela madrugada.