Noite do corredor
A sede me tirou do sono antes do relógio. Era a boca pastosa de quem comeu feijoada demais e bebeu água de menos, o tipo de sede que não resolve com um gole na garrafa ao lado da cama. Levantei sem ligar a luz. O quarto cheirava ainda a condimento e a suor velho de verão. Do lado de fora, a chuva fina batia no beiral como se contasse moedas.
No corredor do segundo andar o escuro era conhecido: a sombra do armário de vassouras, o cheiro de madeira úmida, o tapete gasto que engolia o som dos pés. Eu andava descalço, camiseta torta, short de dormir. A porta do banheiro estava entreaberta, um fiapo de luz amarela vazando do corredor do fundo — a lâmpada que Nando teimava em não trocar. Fui até a cozinha, bebi água direto da torneira, o metal frio nos lábios, a água com gosto de cano antigo. Quando voltei, o corredor tinha outra respiração.
Brad estava encostado na parede, perto da porta do quarto dele, braços cruzados sobre o peito. Camiseta branca colada no torso pelo calor, bermuda preta. O cabelo bagunçado de quem tentou dormir e não conseguiu. Os olhos se ajustaram ao escuro e me acharam.
— Joe — murmurou, quase sem som.
— Não conseguia dormir — respondi no mesmo tom. A casa inteira dormia: Lia do outro lado da parede, Pri no quarto que ainda cheirava a tinta, Nando no atelier lá embaixo, ou no cache, ou nos dois. Qualquer ruído alto virava acusação.
Ele se afastou um pouco da parede. O assoalho crecou debaixo do peso dele e os dois ficamos parados, ouvindo se alguém se mexia. Nada. Só a chuva e o zumbido distante de um ônibus na Consolação.
— Fiquei pensando na conta do gás — ele disse. — Lia não falou na mesa, mas eu vi o papel grudado na geladeira.
— Eu também vi.
Brad passou a mão no rosto. A barba rala raspava na palma. Eu conhecia aquele gesto: vergonha misturada com cansaço, a dívida com o ex pairando sem nome. Ele nunca falava o valor. Eu nunca cobrava o número.
— Você não precisa carregar sozinho — falei.
— Não carrego sozinho. Carrego com a casa. E a casa já está cheia.
Ficamos um metro de distância. O ar entre a gente era quente, cheirava a feijão residual e a sabonete barato do banheiro compartilhado. Eu via o contorno do ombro dele, a clavícula suada sob a gola da camiseta. Queria encostar. Não encostei.
— Pri dormiu? — perguntei, só para ter algo na boca.
— Acho que sim. Ouviu música baixo até uma e meia. Depois silêncio. Ela bloqueia e desbloqueia o cara o tempo todo. Eu tentei falar, saí com a cabeça oca.
— Você sempre tenta.
Ele deu um meio sorriso no escuro. Eu senti mais do que vi.
— E você sempre fica de vigília na varanda. Acha que eu não sei?
O peito apertou. A ferida antiga, o medo de ser o primeiro a ir embora, subiu como refluxo. Eu queria ser feliz de verdade sem largar o teto. Queria o joelho dele sob a toalha de domingo e, ao mesmo tempo, temia o dia em que o joelho sumisse e eu descobrisse que a casa continuava em pé sem mim.
— Sei de muita coisa sua também — respondi. — Só não falo.
Brad deu um passo. O quase-toque ficou menor. A ponta dos dedos dele roçou o meu antebraço, acidental ou não, e os dois recuamos meio centímetro, como se o fio elétrico da casa tivesse estalado.
— Desculpa — ele sussurrou.
— Não precisa.
O relógio da sala, lá embaixo, marcou alguma coisa que não ouvimos direito. Talvez três e pouco. Talvez quatro. O tempo de madrugada em Santa Cecília era borracha: esticava e encolhia conforme a chuva.
— Eu tenho medo de você ir embora primeiro — disse ele de repente, tão baixo que quase foi só hálito. — Não o medo bonito de novela. O medo feio. De chegar no quarto e a cama estar arrumada demais.
A frase me acertou no meio. Eu tinha o mesmo medo invertido e nunca tinha ousado botar na boca.
— Eu também — admiti. — Medo de ser eu o primeiro. De abandonar antes de ser abandonado. É patético.
— É humano.
Ele riu sem barulho. Eu ri junto. O riso ficou preso no peito, quente.
A luz do banheiro ainda vazava. No retângulo amarelo eu vi melhor o rosto dele: olheiras, a cicatriz pequenina no queixo que ele nunca explicou, a boca entreaberta. Desejo lento subiu pela nuca, não o desejo de app, não o desejo de pressa. O desejo de ficar ali, de nomear a amizade grosso e sem nome bonito, de não resolver a dívida e mesmo assim tocar.
Levantei a mão. Parei no ar. Ele olhou para os meus dedos, depois para os meus olhos. O consentimento estava ali, no silêncio, no fato de nenhum dos dois se afastar de verdade.
Encostei a ponta dos dedos no ombro dele, por cima da camiseta úmida. A pele por baixo era quente. Brad inclinou a cabeça, a testa quase na minha. Respiramos o mesmo ar por dois, três segundos. O corredor inteiro parecia segurar a casa no lugar.
— Joe…
— Eu sei.
O beijo veio curto. Lábios secos, gosto de pasta de dente antiga e de feijão distante. Não foi filme. Foi desajeitado: dentes batendo de leve, mão dele na minha cintura por um instante, a minha mão subindo até a nuca dele e sentindo o cabelo curto. Durou o tempo de uma respiração funda. Depois ele afastou o rosto o suficiente para falar sem beijar de novo.
— Isso complica.
— Tudo já está complicado — respondi. — Conta, aluguel, o envelope que a Lia esconde, o Nando bebendo sozinho e chamando de cache, a Pri com o interior no peito. A gente só acrescenta mais um fio.
Ele assentiu. Os olhos brilharam no escuro. Quase toquei de novo a cicatriz do queixo. Não toquei. O beijo tinha sido o bastante para a noite; empurrar mais seria virar carne cedo demais, e o desejo lento pedia paciência de quem já tinha trinta e oito anos e cicatrizes de abandono.
— Amanhã a Lia vai cobrar o gás de novo — murmurou Brad. — Eu coloco o que der. O resto eu resolvo com o… com o ex. Sem contar pra ninguém o número.
— Não precisa contar. Só não some no app o dia inteiro.
— Prometo tentar.
Promessas de madrugada pesavam pouco e mesmo assim aqueciam. Ficamos mais um minuto encostados na parede, ombros quase se tocando, ouvindo a chuva engrossar. Alguém se mexeu no quarto da Lia — o rangido da cama, um suspiro — e os dois engolimos a voz. O silêncio voltou a ser regra da casa.
— Vai dormir — falei.
— Você também.
Ele abriu a porta do quarto dele com cuidado. Antes de entrar, olhou pra trás. Eu ainda estava no corredor, mão na parede fria, coração batendo alto demais para a hora.
— Boa noite, Joe.
— Boa noite.
A porta se fechou sem estalo. Eu fiquei sozinho de novo no escuro conhecido. A sede tinha passado; restava outra sede, mais fundo, a de ficar. Passei a mão na parede como na noite anterior, sentindo a tinta descascada, a história de outras repúblicas, outros corpos, outras dívidas que a casa já tinha absorvido.
No meu quarto, deitei de lado. O beijo ainda estava na boca, leve, incerto, real. Celular na cadeira, tela pra baixo. Sem aplicativo. Sem cobrança. Pensei no joelho sob a toalha, no aceno de Kaio na janela do outro prédio — a luz dele apagada agora —, no envelope na gaveta da Lia, no cheiro de thinner que às vezes subia do atelier do Nando. Pensei na amizade grosso segurando o teto e no desejo lento puxando o centro da mesa sem prometer salvação.
A chuva continuava. O corredor lá fora voltava a ser só madeira e sombra. Eu queria ser feliz de verdade sem ser o primeiro a ir embora. Queria o quase-toque de novo amanhã, ou depois de amanhã, ou no próximo domingo de feijoada. Queria que Brad dormisse sem o peso do número secreto e que eu dormisse sem o ímã do abandono.
Fechei os olhos. A casa inteira respirava sem se falar — só que agora com o gosto de um beijo de corredor na boca e o peso doce de uma madrugada que não salvava ninguém e, mesmo assim, nos mantinha juntos até a próxima conta, a próxima chuva, o próximo silêncio compartilhado no segundo andar do sobrado antigo perto da Santa Cecília.