Feijoada de domingo
O domingo chegou com cheiro de alho e cebola antes mesmo do sol vencer a camada de nuvem baixa. Eu acordei tarde, corpo pesado da vigília da segunda, e a casa já falava em voz alta. Lia no fogão, avental velho da Nando amarrado no quadril, cutucava o feijão preto que tinha colocado de molho na sexta. Brad cortava linguiça na tábua rachada. Pri, ainda de pijama de algodão fino, descascava laranja na pia e oferecia gomos a quem passasse. Nando não aparecia; a porta do atelier no fundo do corredor estava entreaberta e cheirava a turpentina e a algo doce demais, daqueles cheiros que ele chamava de cache e a gente fingia não notar.
— Falta carne seca — disse Lia, sem se virar. — E tempero. Alguém sobe na feira da Santa Cecília antes que feche o barracão do Sr. Clóvis?
Eu me ofereci porque precisava sair. O apartamento no segundo andar do sobrado antigo segurava o calor úmido do verão chuvoso como um casaco molhado. Desci a escada de madeira que rangia no terceiro degrau, o mesmo rangido de sempre, e fui a pé. A rua estava molhada da chuva da madrugada; folhas de mangueira grudavam no asfalto. Comprei carne seca, laranja-da-terra, um maço de couve e, por impulso, um pacote de farinha de mandioca extra. O dinheiro saiu da minha conta pessoal. Não anotei. Ainda.
Quando voltei, Brad estava na varanda com o celular baixo, tela apagada, olhando o prédio do outro lado da rua. Kaio às vezes deixava a janela entreaberta nos domingos em que não pegava plantão. Hoje a cortina se mexia. Eu subi as sacolas e Brad veio me ajudar. Nossas mãos se tocaram na alça de plástico. Ele não puxou. Eu também não. O quase-toque ficou ali, entre o peso da carne e o cheiro de feijão que já começava a engrossar.
— Você pagou — ele murmurou, só pra mim.
— Paguei. Depois a gente acerta.
Ele sorriu de canto, aquele sorriso que escondia a vergonha da dívida com o ex, o valor que nunca dizia em voz alta. Eu conhecia o brilho no olho dele quando o assunto era dinheiro que não tinha. Queria perguntar quanto ainda faltava. Não perguntei. Ficar na casa era também não transformar cada silêncio em ultimato.
Na cozinha, Pri ria de alguma coisa que Brad contava — uma história de aplicativo da sexta, gente que sumia no meio da conversa. Lia revirava os olhos, mas ria também. Nando surgiu no fim da manhã, camiseta manchada de tinta azul-cinza, cabelo grisalho na testa, e anunciou que ia “só provar o caldo”. Provar virou beber cerveja gelada da geladeira comum e reclamar que o feijão estava salgado demais, o que era mentira. Lia rebateu sem carinho:
— Então tempera você, Nando. Ou pinta o caldo e vende como instalação.
Eles se olharam de um jeito antigo, aquela noite que ninguém nomeava. Cuidado às avessas. Ele riu baixo e foi buscar a panela de pressão que faltava no armário de cima. Eu notei o envelope branco no canto da gaveta quando Lia abriu pra pegar o sal. Ela fechou rápido. Demissão, pensei. Ou algo que pesava igual. Não falei. Companheirismo de contas e silêncios: a gente dividia o que cabia no orçamento e guardava o resto no peito.
A feijoada ficou pronta no meio da tarde. Chovia de novo, chuva fina que fazia o toldo pingar no mesmo ritmo da segunda. Montamos a mesa na sala — a mesa comprida de madeira clara, com a cadeira torta que só o Nando usava porque dizia que encaixava a coluna. Tinha feijão grosso, torresmo crocante que Brad fritou com paciência de quem precisa se ocupar as mãos, couve refogada no alho, farofa amarela, laranja em rodelas, arroz solto. Eu servi o meu prato e sentei de frente pra janela. Do outro lado, a cortina de Kaio se abriu um pouco mais. Ele passou de camiseta preta, olhou na nossa direção por um segundo, e sumiu. Desejo lento, à distância. Eu engoli a salivação que não era só fome.
— Saúde — disse Pri, erguendo o copo de refrigerante. — Por quem chegou e por quem ainda não foi embora.
Brad riu. Lia ergueu a sobrancelha. Nando bateu o fundo da garrafa na madeira. Eu bebi água e senti o gosto de metal da torneira antiga. A mesa encheu de conversa sem resolução. Pri falou do irmão no interior, da mala que ainda cheirava a tinta do quarto do fundo, do medo de se perder em São Paulo com o sotaque puxado. Brad se meteu no drama dela — conselhos de quem já deve demais pra dar conta da própria vida — e saiu da frase esvaziado, olhando o prato. Lia falou de números: o aluguel atrasado que a gente tinha parcelado na cabeça, a conta de luz que vinha alta por causa do ar-condicionado gambiarra do atelier, o quinhão de cada um. Ninguém puxou calculadora na hora. A dívida atravessava a mesa como um parente mudo.
Eu olhava Brad mais do que devia. Ele tinha um fio de suor na têmpora, o cabelo grudado, a camisa aberta no segundo botão. Quando se inclinou pra pegar a farofa, o joelho dele encostou no meu por baixo da toalha velha. Ficou. Eu não afastei. O calor do contato subiu pela perna como se a casa inteira estivesse ali, entre a madeira e a pele. Riso alto de Pri quebrou o momento. Ela tinha bloqueado e desbloqueado o ex no meio da refeição — o celular vibrou, ela riu sem graça, guardou o aparelho de bruços.
— Desculpa — murmurou. — Hábito feio.
— A gente tem piores — respondi.
Nando se levantou no meio do segundo prato, disse que ia “buscar um cache de verdade” e sumiu no corredor. Lia acompanhou com o olhar até a porta fechar. Depois, baixo, só pra mim:
— Ele bebe sozinho e chama de processo criativo. Um dia a gente acha ele no chão do atelier e vai ter que inventar desculpa pro síndico.
— A gente inventa — falei. — Sempre inventa.
Ela assentiu. A amizade entre a gente era isso: contas na geladeira, silêncios que não pediam explicação, o medo compartilhado de que alguém fosse o primeiro a ir embora e o teto rachasse. Eu tinha trinta e oito anos e ainda acordava com a ansiedade de abandono grudada no peito como o cheiro de feijão na roupa. Queria ser feliz de verdade sem largar a casa. O segredo era o inverso — o medo de ser eu o primeiro a largar.
Depois da comida, a louça se acumulou. Brad e eu ficamos na pia. Ele lavava, eu enxugava. A água quente embaciava o vidro da janela da cozinha. Lá fora, a chuva tinha virado garoa. As mãos dele, molhadas, passaram perto das minhas cada vez que eu pegava um prato. Quase-toque de novo. Olhares. O desejo era psicológico, uma pressão atrás das costelas, a vontade de nomear o que a gente não nomeava pra não estragar o fio grosso que segurava o teto.
— Joe — ele disse, voz baixa.
— Hm.
— Obrigado por abrir a porta pra Pri. E por não cobrar o que eu devo em voz alta.
Eu enxuguei o último garfo. O pano de prato era o mesmo de sempre, furado no canto.
— A casa cobra de outro jeito — respondi. — Em silêncio. Em domingo. Em feijoada que a gente come junto e finge que o resto se resolve.
Ele se virou. Estávamos perto demais pra duas pessoas que só se chamavam de amigos íntimos. O cheiro dele misturava linguiça, sabão e o suor leve da tarde. Eu olhei a boca. Ele olhou a minha. O beijo, se viesse, teria que ser ganho — não roubado. Não veio. Pri entrou na cozinha cantarolando alguma música de celular e a tensão se desfez em riso falso. Brad deu um passo pra trás. Eu pendurei o pano.
Nando voltou no fim da tarde com os olhos brilhantes demais e anunciou que ia pintar “a cor da dívida”. Lia mandou ele beber água. Ele riu e sumiu de novo. Eu subi na varanda com uma caneca de café ralo — o mesmo café fraco de sempre, que ainda existia pela manhã. Do outro lado, a janela de Kaio estava entreaberta de verdade. Ele apareceu, encostou o ombro no batente, acenou com a cabeça. Eu acenei de volta. Nada mais. Desejo à janela, sem pressa de virar carne. Os turnos dele comiam o desejo; o meu medo de abandono comia a pressa. Ficava bom assim, por enquanto.
A casa respirava em camadas. Pri no quarto do fundo, mala aberta, celular em cima da cama. Lia na sala, envelope ainda na gaveta, planilha mental rodando. Nando no atelier, pincel e garrafa. Brad no sofá, perna esticada, olhando o teto como se o valor real da dívida com o ex estivesse escrito no reboco. Eu na varanda, sentindo o ar úmido entrar pela blusa.
Ninguém resolveu nada. O riso da tarde ainda ecoava nas paredes. A dívida seguia ímã, puxando cada um pro centro da mesa e empurrando pra longe ao mesmo tempo. A amizade, esse fio grosso e sem nome bonito, seguia segurando o teto. Eu queria ficar. Queria ser feliz sem ser o primeiro a ir embora. Queria o joelho de Brad de novo sob a toalha, o aceno de Kaio, o silêncio de Lia, o cheiro de feijão que ia grudar na casa até quarta.
Desci, fechei a porta da varanda com o trinco que engasgava. Por dentro, o corredor estava escuro e conhecido. Passei a mão na parede. No meu quarto, deitei de lado. Celular na cadeira, tela pra baixo. Sem aplicativo. Sem cobrança. A casa inteira, de novo, respirando sem se falar — só que agora com o gosto de feijoada na boca e o peso doce de um domingo que não salvava ninguém e, mesmo assim, nos mantinha juntos até a próxima chuva.