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Sentir também é um ato de coragem.

Livros Quarto de Encontro

Capítulo 04 · 11 min

Pri na porta

A segunda-feira chegou sem drama de céu. Só o calor úmido de São Paulo depois da chuva, o asfalto da Santa Cecília ainda escuro nas laterais, e o cheiro de café queimado que a Lia jura que não é dela. Eu abri o olho com a garganta seca e o celular virado para baixo na cadeira, exatamente onde tinha deixado. Não abri aplicativo. Levantei, pus a camiseta do dia anterior e fui até a cozinha descalço, sentindo a madeira do corredor ceder um pouco perto do banheiro, aquele gemido conhecido da casa antiga.

Na geladeira, o ímã prendia o boleto do condomínio com uma data que ninguém queria ler em voz alta. Água no filtro, barulho de torneira, a panela de pressão da vizinha de baixo batendo em algum lugar. Brad ainda não tinha saído do quarto. Nando roncava com a porta entreaberta, cheiro de thinner fraco misturado a algo adocicado que ele chama de “cache” e eu não pergunto. Lia estava na mesa com o cabelo preso, caderno aberto, caneta riscando colunas de número como se números pudessem virar parede.

— Café tá fraco — eu disse.

— Café tá o que a gente tem — ela respondeu, sem levantar a cabeça. — Se o Brad não depositar até quarta, a gente discute de novo o rateio. Eu não vou engolir sozinha o atraso.

Assenti. Peguei a caneca rachada na borda e sentei. O silêncio entre a gente não era hostil; era de contas. De gente que divide teto e aprendeu a não romantizar o barulho da chuva quando o aluguel vem carimbado.

O interfone tocou às nove e doze. Um toque curto, depois outro, insistente demais para entregador preguiçoso. Lia olhou para mim. Eu levantei.

— Se for o síndico, falo que o Brad tá no banheiro até dezembro.

Desci o lance de escada interno até o hall do segundo andar. O sobrado tem essa coisa de porta grossa, peitoril gasto, campainha que às vezes falha e a gente finge que é charme. Abri.

Pri estava do outro lado com uma mala de rodinha torta e uma mochila no ombro. Vinte e seis anos no rosto cansado, cabelo preso com elástico barato, blusa que já tinha sido clara. O sotaque do interior ainda vinha antes da frase inteira, como se as palavras precisassem atravessar estrada.

— Joe… eu sei que era pra ser só no fim do mês. Mas eu não tinha pra onde — ela engoliu seco. — Minha mãe ligou de madrugada. Meu irmão bateu o carro na estrada de terra perto de casa. Não é grave grave, mas ela precisa de mim e eu… eu já tinha dado o quarto lá. Desci com o que deu. Tem como eu entrar agora? Eu pago a minha parte. Eu juro.

Olhei a mala. Olhei o corredor atrás de mim, onde a casa inteira respirava sem se falar desde o domingo. Pri não pedia salvação. Pedia um canto. E eu, com trinta e oito anos e medo de ser o primeiro a ir embora, entendi demais o peso de chegar cedo demais num lugar que ainda não te chamou de seu.

— Entra — falei. — A gente ajeita.

Ela passou a mala pela soleira. A roda rangeu no piso. Subimos. Na cozinha, Lia fechou o caderno com o polegar dentro, marca de página de quem não esquece dívida.

— Oi, Pri.

— Oi, Lia. Desculpa o susto.

Brad apareceu no batente do corredor só de bermuda, cabelo bagunçado, cheiro de sono e de perfume de ontem. Viu a mala. Viu o rosto dela. Não fez piada.

— Família? — perguntou.

— Família — Pri confirmou. — Interior. Estrada. Minha mãe falando baixo pra não acordar o meu irmão no sofá dela. Eu bloqueei o… enfim. Bloqueei gente que não devia e desbloqueei a mãe. Agora tô aqui.

Nando surgiu depois, camisa aberta, cheiro mais forte de solvente. Olhou a cena como quem olha quadro pela metade.

— Quarto do fundo ainda tá com cheiro de tinta — disse. — Eu ia dar mais uma demão. Mas cabe mala. Cabe gente. O que não cabe é discurso.

Pri soltou um riso curto, sem alegria completa. Eu peguei a mala dela e puxei até o corredor. O quarto do fundo era o menor: janela para o poço de luz, cama de solteiro que a gente comprou usada na online, armário sem porta. Cheiro de tinta acrílica barata, sim. Um ventilador encostado na parede. Eu abri a janela. Entrou o barulho da rua — ônibus na Consolação longe, buzina, alguém gritando com cachorro.

— É provisório até a gente ver o mês — eu expliquei, sem firula. — Água, luz, net, gás. Lia tem a planilha. Você come o que tiver na geladeira e repõe o que puder. A gente não é hotel e não é igreja.

— Eu sei o que é república — ela disse, pousando a mochila na cama. — Eu só precisava de uma porta que abrisse hoje.

Fiquei no batente um segundo a mais do que devia. O medo de abandono, o meu, cutucou a costela por dentro: e se a casa for inchando de gente e de silêncio até não caber mais o meu? Empurrei o pensamento. Fechei a porta pela metade e voltei.

Na cozinha, Lia já tinha reaberto o caderno.

— Ela entra no rateio a partir de hoje. Proporcional. Eu não vou bancar drama de interior com dinheiro que não tenho.

— Ela vai pagar — Brad disse, enchendo um copo d’água. — Eu ajudo ela a ver o primeiro mês se precisar.

Lia ergueu uma sobrancelha.

— Você ajuda com o quê, Brad? Com o que você deve pro ex ou com o que você deve pra gente?

O ar ficou fino. Brad bebeu a água inteira, largou o copo na pia com um barulho seco.

— Com o que eu tiver. Para de falar do ex como se fosse o aluguel.

— O ex vira aluguel quando você atrasa o nosso — ela devolveu, baixa, precisa.

Eu levantei as mãos, gesto de juiz sem apito.

— Pri acabou de chegar. A gente resolve número depois do almoço. Nando, a tinta seca até quando?

— Até a noite, se não chover pra dentro do poço — ele respondeu. Já estava de costas, sumindo pro canto que ele chama de atelier e que é só uma mesa cheia de tubo amassado. — Se alguém entrar lá e mexer nos pincéis, eu cobro em silêncio longo.

Ficamos. O café esfriou. Pri reapareceu com o celular na mão, tela acesa, depois apagada, como se tivesse lutado com uma mensagem e perdido de propósito.

— Posso lavar uma roupa? — perguntou.

— Máquina é coletiva. Sabão tá embaixo da pia. Não enche demais que o cano reclama — eu disse.

Ela assentiu, pegou um saco de roupa suja de viagem. Eu ouvi a água da máquina no corredor, o barulho doméstico que transforma estranho em quase-morador. Brad a seguiu, falando baixo sobre linha do metrô, sobre pão na padaria da esquina, sobre não deixar bolsa aberta no ônibus. Ele se mete nos dramas dela com uma facilidade que me deixa o peito misto: cuidado genuíno e fuga. Quando volta, costuma voltar mais vazio, como se tivesse gastado a parte boa de si em problema alheio para não olhar o próprio.

Eu fiquei com Lia.

— Envelope — ela murmurou, do nada, olhando o caderno. — Não é da Pri.

— Hã?

— Nada. Pensamento alto. Esquece.

Não esqueci. Mas não cobrei. Companheirismo de contas e silêncios é isso: saber onde dói e não espremer.

O dia escorreu em tarefas miúdas. Eu respondi e-mail de freela mal pago, revisei texto de cliente que não sabe o que quer, comi pão com ovo e farofa que restou. Do outro lado da rua, no prédio mais novo, a janela do Kaio ficou entreaberta um tempo. Cortina clara. Nenhuma cara. Eu não fiquei vigiando de propósito; o corpo é que conhece o ângulo. Desejo lento, sem pressa de virar carne. Só a informação de que alguém ali também trabalha turno que come o dia.

À tarde choveu de novo, daquelas chuvas curtas de verão que lavam a poeira e deixam o cheiro de terra quente mesmo no meio da cidade. Pri estendeu a roupa no varal improvisado da área. Brad ajudou a prender prendedor. Lia passou por eles com um saco de lixo e não comentou. Nando não apareceu; o cheiro de álcool barato às vezes sobe quando a porta do atelier veda mal, e a gente batiza de cache porque nome feio pede conversa e conversa pede força.

No fim da tarde, a mãe da Pri ligou no viva-voz sem querer. A voz lá do interior falava de gesso, de dor no ombro do irmão, de dinheiro de passagem que não tinha. Pri respondia monossílabo, olhando o chão do quarto. Quando desligou, ficou parada. Eu estava no corredor trocando lâmpada que piscava e fingi que a lâmpada pedia toda a minha atenção.

— Você não precisa sumir pra ser útil pra eles — eu falei, enfim, da porta. — E não precisa se desculpar por ocupar o chão.

Ela olhou.

— Na minha cidade a gente some de vergonha. Aqui eu tô tentando sumir de outro jeito. Não sei se tá certo.

— Certo é caro — eu disse. — Aqui a gente mexe com o possível.

Ela sorriu com um canto só. Eu troquei a lâmpada. A luz ficou estável, amarelada, honesta.

À noite a casa jantou em horários diferentes. Lia comeu marmita na mesa. Brad pediu esfiha e dividiu com Pri sem anunciar. Nando jantou sozinho, se é que jantou. Eu lavei a louça que não era só minha. Espuma, água morna, o prato com resto de molho. No azulejo rachado, um ímã de paisagem genérica prendia o papel do rateio novo, agora com o nome da Pri rabiscado por Lia em letra pequena.

Depois, na varanda estreita do segundo andar, eu sentei no banco de madeira que sobra de inquilino antigo. A chuva tinha parado de novo. Pingos no toldo, teimosos. Santa Cecília piscava em janelas: TV, abajur, alguém fumando longe. Brad saiu, parou ao meu lado, não sentou.

— Ela vai ficar — ele disse.

— Vai.

— Eu falei pra ela não mandar mensagem pro cara. Ela bloqueia e desbloqueia como se fosse respiração.

— Você não é terapeuta, Brad.

— Eu sei. Eu só… não quero ela na rua. E não quero você com cara de quem carrega a casa nas costas sozinho.

Quase-toque no ar entre a gente. Nenhuma palavra fácil de romance. Só a dependência conhecida, a amizade que às vezes aperta demais a garganta. Ele foi embora pro quarto. Eu fiquei.

Pri na porta, de manhã, tinha sido um fato. Agora era um silêncio a mais cabendo entre cano e madeira. A casa inalou. Eu soltei o ar devagar, contando o que eu quero de verdade: ser feliz sem abandonar esse teto, sem ser o primeiro a sumir, sem transformar medo em fuga. Do quarto do fundo veio o som de mala sendo aberta com cuidado, zíper longo. Do atelier, nada. Da parede do Brad, o celular vibrando de novo, e ele escolhendo ou não escolher atender.

Eu não bati em porta nenhuma. Fiquei na varanda até o pescoço esfriar. Ser feliz de verdade continuava frase grande. Mas a porta tinha aberto. A Pri dormiria com cheiro de tinta. A Lia dormiria com a planilha na cabeça. O Nando, com o que bebia e não nomeava. O Brad, com a dívida que ainda não diz o valor. Eu, com a janela do Kaio apagada do outro lado e o meu próprio nome escrito no rateio, adulto, devendo, ficando.

A cidade não prometeu nada. O sobrado antigo também não. Só coube mais um corpo e o silêncio que ele trouxe na mala. Eu levantei, fechei a porta-janela da varanda, senti o trinco engasgar e ceder. Por dentro, o corredor estava escuro e conhecido. Passei a mão na parede, guiando o caminho até meu quarto. Deitei de lado. Celular na cadeira, tela para baixo. Sem aplicativo. Sem cobrança. A casa inteira, de novo, respirando sem se falar — só que agora com o peso novo de quem chegou cedo e pediu só um chão.

Ficar, naquela segunda, era deixar a mala no quarto do fundo e não perguntar se o irmão dela ia ficar bem o bastante para ela não precisar voltar. Era confiar, pela manhã, que o café fraco ainda ia existir. Era ouvir o Brad rir baixo, ou não rir, e não transformar isso em ultimato. Eu fechei o olho. O toldo pingou pela última vez. São Paulo seguia quente. A dívida seguia ímã. A amizade, esse fio grosso e sem nome bonito, seguia segurando o teto por enquanto.