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Sentir também é um ato de coragem.

Livros Quarto de Encontro

Capítulo 13 · 12 min

Resaca política

O primeiro dia do ano não pediu fogos. Pediu água gelada na caneca rachada e a vontade de que o calendário fosse só papel. Acordei com a boca seca, a nuca latejando e a certeza feia de que a resaca política já tinha entrado pela porta sem bater — a da casa, a do país, a do corpo. Santa Cecília amanhecia suja de umidade; o toldo pingava o resto da chuva da virada num ritmo preguiçoso; a janela do Kaio estava fechada, como se o vizinho também tivesse o direito de desaparecer na cama alheia da mãe, tradição chata e boa.

Desci descalço. O terceiro degrau rangeu. Na cozinha, o ímã verde ainda segurava as contas e o bilhete do chuveiro — janeiro não apagava boleto por solidariedade de réveillon. O café ralo já estava no fogo: alguém — Lia, pelo cheiro de quem acorda cedo demais pra fugir do próprio pensamento — tinha ligado o fogão antes de eu abrir os olhos. Ela estava sentada à mesa com o caderno de capa preta aberto, a planilha da trégua, os números sem maquiagem. Vinte e nove anos, demissão nomeada, currículo sem resposta, batom do ano novo já lavado.

— Feliz primeiro — murmurei.

— Feliz o quê — ela respondeu, sem humor. — O celular tá cheio de notícia. Eu abri sem querer. País acordou igual a gente: com dor de cabeça e conta pra pagar.

Empurrou o aparelho na minha direção, tela pra cima por um segundo raro. Manchete de portal: corte, reajuste, declaração de alguém que eu não queria ouvir de manhã, eleição passada regurgitada em análise de ano novo como se o povo fosse prato feito. Virei a tela pra baixo. O gesto era nosso idioma coletivo — esconder pra respirar — e também uma pequena covardia.

— Eu não aguento política antes do café — falei.

— Política é o café — Lia retrucou. — É a água. É o gás. É o senhorio. É a minha demissão. Você acha que envelope vem de onde? De mau humor? Vem de gente sentada em cadeira alta decidindo quem sobra.

Eu enchi a caneca. A rachadura sumiu sob o líquido escuro. Bebi. Amargo, ralo, necessário. Brad apareceu no vão, cabelo de quem dormiu no sofá da sala com casaco por cima, o rosto ainda marcado pelo beijo sob fogos e pelas parcelas do Mel. Trinta e dois anos, gay, o ensaio ainda valendo, a dívida ainda existindo. Sentou. Pegou o celular. Leu. Franziu.

— Isso aí é clickbait — murmurou, apontando o aparelho da Lia sem tocá-lo. — Todo primeiro de janeiro a mesma ladainha. Como se a gente não soubesse que o país tá uma merda. Ficar brigando no grupo da família não paga minha parcela.

— Não é grupo da família — Lia disse. — É a vida. Você acha que dívida de ex é só drama pessoal? É estrutura. É quem pode parcelar e quem come miojo. É privilégio de achar que dá pra desligar a notícia.

Brad soltou o ar pelo nariz. Eu senti a micro-política da casa se armando em cima da política grande — a trégua dos trinta dias sem vilão ainda fresca, a planilha com verdade ainda aberta, o quase-perdão de Nando e Lia ainda úmido da laje. Não resolveríamos o país na cozinha de Santa Cecília. Mal resolvíamos o hidrômetro.

Pri entrou com o uniforme do café da Augusta amassado debaixo do braço — plantão de ano novo, gorjeta duvidosa, sotaque do interior mais forte quando estava cansada. Vinte e seis anos, bi, o celular na mão, o ritual do ex já traído às quatro e dezessete da madrugada. Ela pousou o aparelho tela pra baixo com culpa teatral.

— Eu desbloqueei — confessou, antes que alguém perguntasse. — Promessa furada. Ele mandou figurinha de fogos. Eu respondi com um ponto. Depois bloqueei de novo. Sou um fracasso político de si mesma.

— Você é humana — eu disse. — Humano fura promessa. País também.

Nando subiu do atelier com as mãos limpas e a cara de quem não dormiu. Quarenta e um, bi, pintor, água na mão — só água, ostensiva, a bandeira branca ainda hasteada. Na camiseta, um fio de azul-cinza fantasma. Olhou o círculo na cozinha como quem avalia composição: excesso de tensão no canto superior esquerdo, luz ruim, café demais no ar.

— Tá todo mundo acordado pra brigar ou pra sobreviver? — perguntou.

— As duas coisas — Lia respondeu. — É o Brasil. É a casa. É a mesma merda em escala diferente.

Ele sentou. Abriu o pão dormido. Mastigou. Ouviu. Eu observava — meu esporte, a sala de espera humana que Helena pedira que eu abandonasse — e sentia o cansaço coletivo grudar no azulejo como vapor de chuveiro compartilhado. Ninguém estava inteiro. Ninguém queria ser o primeiro a ir embora. A resaca física era de vinho barato e cerveja de lata; a política era de trégua frágil e de manchete e de planilha e de medo.

A conversa engrossou sem pedir licença. Brad falou de um tio no interior que ainda mandava áudio longo sobre “os bons tempos” e sobre quem merecia emprego. Lia rebateu que “bons tempos” pra uns era demissão pra outros — ela, por exemplo. Pri disse que no café da Augusta o dono tinha falado de reajuste de aluguel do ponto e que os funcionários iam “entender”, verbo cruel. Nando, quieto até demais, largou a frase que acendeu o pavio leve:

— Eu votei. Todo mundo aqui votou. E mesmo assim a gente tá dividindo hidrômetro e envelope. Às vezes acho que política grande é teatro pra gente não olhar a pia.

Pri virou o rosto. O sotaque saiu afiado:

— Teatro? Eu vim do interior. Eu vi gente sem posto de saúde. Eu vi urna e vi medo. Não chama de teatro o que me trouxe pra São Paulo com uma mala e uma vergonha. Você pode achar que a tela resolve. Eu acho que não.

— Eu não falei que resolve — Nando ergueu as mãos, sem cache, só defesa. — Falei que a gente usa o país pra não olhar a casa. Eu incluso. Eu usei tinta. Você usa o ex. Lia usa a planilha. Joe usa o silêncio. Brad usa o celular virado. É a nossa política miúda. Trégua. Vilão. Trinta dias. Envelope. É isso.

Lia bateu a caneta no caderno — não grito, só ênfase.

— A planilha não é fuga. É o que impede o senhorio de nos comer vivos. E sim, Nando: a política miúda importa. Ontem a gente quase se matou por água. Hoje a gente discute país porque a água ainda tá lá. Não é ou. É e.

Eu bebi o resto do café. O peito apertou do jeito da ansiedade de abandono — o medo de que a discussão leve virasse rachadura nova, o desejo de dizer a frase minha e o hábito de guardar. Helena latejou na memória: *frase minha, não segredo alheio*. Respirei até quatro.

— Eu observei vocês ontem na laje — falei. — Promessas. Quase-perdão. Beijo. Kaio. Chuva. Hoje a casa acordou e a política voltou porque a política nunca saiu. Eu não tenho solução. Eu tenho trinta e oito anos e medo de ser o primeiro a ir embora quando a conversa esquenta. Essa é a minha frase. Não resolve o país. Não resolve a planilha. Só... tá dita.

O silêncio depois foi diferente do silêncio da briga na cozinha. Não era explosão. Era assentamento. Brad olhou pra mim como quem reconhece o ensaio no meio do discurso. Lia fechou o caderno sem fechar a planilha de verdade — o papel ainda estava ali, os números ainda eram verdade. Pri apertou o celular tela pra baixo. Nando bebeu água.

— Trinta dias sem vilão continua valendo — Lia disse, mais baixa. — Mesmo se a gente discordar de manchete. Discordar não é vilania. Sumir com boleto é. Mentir emprego era. A gente tá tentando outro jogo.

— Outro jogo — Brad ecoou. — Eu confirmei as parcelas com o Mel ontem de manhã, antes dos fogos. Mensagem curta. Ele respondeu com ok e um emoji que eu ignorei. A primeira parcela sai semana que vem. Metade do gás eu já pus. A outra... depende disso. Não é salvação. É parcela. Política do possível.

A palavra *parcela* assentou junto com *trégua*. Eu quis tocar o pulso dele em cima da mesa. Quase. O indicador chegou perto e ficou no ar. Quase. Nosso idioma. O beijo da laje ainda estava na boca como gosto fantasma — cerveja, medo, calendário. Continua ensaio. Sem quadro cedo. Sem fuga.

Lá fora, Santa Cecília fez barulho de primeiro de janeiro: menos moto, mais silêncio de quem dorme até tarde, um foguete atrasado e solitário estourando longe, irônico. A chuva miúda voltou. O toldo pingou. Eu fui à janela torta. A janela do Kaio ainda fechada. Desejo lento em pausa. O quase da laje — mão erguida, voz, nome, presença breve — cabia no bolso junto com a chave torta.

Pri se levantou pra ir ao plantão.

— Se alguém passar na Augusta, o café tá com desconto de funcionária. Sem milkshake. Milkshake ainda é luxo. E... feliz ano de verdade, se der. Sem teatro. Com dor de cabeça e tudo.

Saiu. A porta da frente bateu com cuidado. Nando desceu ao atelier — a tela do corpo sem rosto ia ver o primeiro sol do ano de verdade, luz no peito, sem verniz mentiroso. Lia ficou com o caderno. Brad ficou comigo. A cozinha ficou com o cheiro de café ralo e de resaca política: a grande e a miúda, as duas cobrando o primeiro dia.

— Você tá bem? — Brad perguntou, eco da noite da briga.

— Não. Você?

— Não. Mas tô aqui. Sem fogos. Sem salvação. Com a manchete virada pra baixo e a parcela marcada.

Era o bastante e não era. Eu lavei a caneca rachada. O ímã verde tremeu quando fechei a geladeira. Lá dentro: ovo, margarina, pouco de tudo. A pobreza íntima da república, iluminada pela lâmpada amarela. A demissão da Lia ocupava a casa como móvel; a dívida do Brad também; a trégua, frágil, segurava o teto com fita crepe imaginária.

Sentei de novo. Brad abriu um app e fechou. Virou a tela. Eu contei a respiração. Pensei em Helena. Pensei em ser feliz de verdade — o mantra sujo de uso, teimoso, ainda meu. Se viesse, não viria no primeiro de janeiro com solução de país. Viria assim: na micro-política de quem discorda sem destruir a pia, de quem observa sem engolir o próprio cansaço inteiro, de quem deixa a notícia tela pra baixo o tempo de beber café ralo e admitir que a casa ainda respira.

A tarde chegou lenta. Eu passei pano na mesa. Lia mandou mais dois currículos — prometeu dez; o ano cobraria o resto. Nando não bebeu cache; bebeu água e xingou a luz do atelier que não ajudava a tela. Brad trabalhou em silêncio no quarto, apps, talvez, ou só a performance de ocupação. Eu fui à varanda. A chuva tinha parado. O ar continuava úmido. Do outro lado, a janela do Kaio abriu um palmo. Ele não apareceu. Só a fresta. O quase.

À noite, jantamos mal: arroz, ovo, o resto do pão. Conversa rala sobre nada e sobre tudo — o senhorio, o condomínio inventado, a Augusta, a tela, o Mel sem nome dito alto demais. Ninguém resolveu o país. Ninguém liquidou a planilha. A trégua aguenta mais um dia, eu pensei, e o pensamento foi político no sentido estreito e verdadeiro: sobrevivência compartilhada.

Antes de dormir de verdade, eu voltei à cozinha só pra beber água. A luz amarela. O ímã verde. A caneca no escorredor. Parei na frente da geladeira como quem para diante de um altar laico e li de novo o bilhete do chuveiro — adultos, por favor — e pensei que adulto, naquela casa, era quem admitia cansaço sem transformar o outro em inimigo eletoral. A briga leve da manhã não tinha virado guerra; tinha virado mapa. Lia x Brad por manchete e parcela; Nando x Pri por teatro e interior; eu no meio, observando, enfim dizendo uma frase minha. Não resolvemos tudo. Não era pra resolver. Era pra sobreviver ao primeiro dia sem fingir que fogos apagam planilha.

Na varanda, de novo, a fresta do Kaio. Dessa vez ele apareceu — camiseta, cabelo molhado de banho alheio, aceno mínimo. Eu acenei. Nada de laje. Nada de brinde. Só o reconhecimento de que o ano tinha começado e o desejo lento ainda existia em duas janelas. Depois ele fechou. Eu fechei. A política do quase também é política: o que se mostra, o que se guarda, o que se parcela.

Deitei. Celular na cadeira, tela pra baixo. Sem aplicativo. Sem manchete. A ressaca física baixava; a política miúda ficava de sentinela. Ouvi Pri voltar tarde, xingar o ex baixo, bloquear de novo. Ouvi Lia virar na cama. Ouvi Nando subir e descer. Ouvi Brad na sala — ou no quarto — respirar o sono de quem beijou sob fogos e ainda tem que acordar pra parcela.

Eu repeti o mantra baixo, olhando o teto rachado do segundo andar:

Ser feliz de verdade.

Se viesse, viria depois da resaca, não no lugar dela. Viria sem eu salvar a república brasileira nem a república do sobrado numa única manhã. Viria no silêncio suado de quem escolheu ficar no primeiro dia, sob o cheiro teimoso de café ralo, com a planilha aberta e a notícia virada, enquanto Santa Cecília, indiferente e necessária, cobrava janeiro com umidade, conta no ímã e a promessa — ainda não furada por completo — de que discordar na cozinha ainda era um jeito de morar junto.