Virada na laje
A virada do ano encontrou a casa em trégua suja e luzes baratas pregadas no parapeito da laje com fita crepe. Não era festa completa. Era sobrevivência com álcool. Santa Cecília suava um calor úmido mesmo depois das dez; a chuva ameaçava e não caía, só engrossava o ar até ele grudar na pele como segunda camisa. Do segundo andar do sobrado subimos a escada estreita carregando gelo derretendo no balde furado, refrigerante, uma garrafa de vinho barato da Pri, cerveja de lata do Brad, e a água — só água — do Nando, ostensiva como bandeira branca depois da briga da cozinha.
A laje era nossa e não era: laje do sobrado, chão rachado, varal sem roupa, antena torta, vista parcial de outras lajes e de fogos longe, na direção do centro, estouro atrasado de quem começa cedo. O toldo, embaixo, não alcançava aquele céu. O ímã verde ficou na geladeira com as contas e o bilhete do chuveiro; a laje pediu outra jurisdição — a das promessas furadas e dos beijos sob pressão de calendário.
Eu subi por último, a caneca rachada na mão porque alguém — eu — teimava em não beber direto da lata. Trinta e oito anos, gay, ansiedade de abandono de plantão mesmo em festa. Brad veio logo atrás, ombro quase no meu na escada. Quase. O ensaio ainda valia; a explosão do domingo ainda latejava no azulejo; o Mel e as parcelas ainda existiam no bolso dele. Mesmo assim ele sorriu de canto quando o primeiro foguete riscou longe, risca fina no calor úmido.
— A gente chegou no ano sem despejo — murmurou. — Já é vitória paulista.
— Não fala alto. O senhorio escuta até pensamento.
Lia trouxe almofadas velhas e o caderno de capa preta fechado — trégua incluía não abrir planilha à meia-noite. O envelope já não era segredo; a demissão ocupava a casa como móvel novo, desajeitado, necessário. Ela vestia uma camiseta preta e batom escuro, vinte e nove anos no olhar de quem resolveu ficar mais uma noite depois de gritar e quase partir o prato e a república. Nando veio de bermuda e camisa aberta, cheiro limpo demais pra quem um dia cheirava a cache; nas mãos, nada de garrafa doce — só a lata de água e, no bolso, um pincel seco como amuleto. Pri chegou por último do turno estendido do café da Augusta, ainda com cheiro de espresso e leite, celular na mão, ritual de bloqueio/desbloqueio do ex em velocidade de réveillon.
— Eu bloqueei — anunciou, jogando almofada no chão. — Até amanhã. Ou até o primeiro foguete. Ou até eu mentir pra mim. Feliz ano, casa torta.
Rimos. O riso foi verdadeiro o bastante pra laje aguentar. Montei o círculo com eles: gelo no balde, lata abrindo, vinho na caneca rachada — a rachadura coberta pelo líquido escuro como se o ano novo pudesse vedar o que o ano velho rachara na cozinha. Eu bebi devagar. Brad bebeu mais. Nando bebeu água e olhou a cidade como se pintasse sem tela, o corpo sem rosto ainda no cavalete embaixo, luz no peito esperando janeiro. Lia ficou quieta o primeiro quarto de hora, o corpo ainda na planilha, a mente no currículo sem resposta.
A conversa veio rala e depois engrossou. Pri contou do cliente que pediu champanhe no café e levou café com canela. Brad falou do trânsito da Augusta sem falar do Mel. Eu falei da Helena sem detalhe clínico — só que eu tinha voltado, só que a sala de espera alheia cansava. Nando descreveu a tela pra quem ainda não tinha visto de perto: ombro, clavícula, nuca, luz. Lia ouviu e não pediu pra tapar.
— Promessa de ano novo — Pri provocou, erguendo o refrigerante. — Cada um. Sem furada óbvia. Furada disfarçada vale. Furada honesta vale mais.
— Eu prometo mandar mais dez currículos — Lia disse. — E não fingir emprego pra vocês. Já chega. Envelope aberto. Casa avisada. Dói igual, mas dói junto.
A frase assentou. Aceitamos com latas erguidas.
— Eu prometo não chamar o Nando de vilão por trinta dias — ela completou, olhando ele. — Se ele não me der motivo novo.
— Eu prometo motivo velho só — Nando respondeu, voz rouca de quem ri sem cache. — E tentar vender a tela. Ou pelo menos mostrar pra alguém que não more aqui. E limpar o banheiro de novo se a água subir. Sem virar herói. Herói não cabe nesse sobrado.
Brad girou a lata entre as mãos, o rótulo suando no calor úmido.
— Eu prometo pagar a outra metade do gás quando a primeira parcela do Mel sair. E… ficar. No ensaio. Sem sumir na virada. Sem virar a tela do celular pra esconder o que a casa já cheira.
Olhou pra mim no fim. Eu senti o peito apertar do jeito antigo e novo. O mantra veio sozinho, atrás dos dentes: *ser feliz de verdade*. Eu quase disse em voz alta. Quase. Guardei pra boca depois, se houvesse depois.
— Eu prometo — falei — não ser o primeiro a ir embora só por medo. E voltar na Helena. E dizer frase minha quando cansar. Já disse uma na cozinha. Posso dizer outra na laje: eu quero ficar. Com vocês. Com o risco. Sem salvador.
Pri ergueu a lata:
— Eu prometo não desbloquear o ex antes do dia três. E trazer café de verdade um domingo. Cortesia de funcionária. Sem milkshake. Milkshake ainda é luxo de quem não divide hidrômetro.
Rimos de novo. Fogos longe engrossaram. O calor grudava. Alguém no prédio vizinho soltou funk baixo; alguém mais longe soltou gritinhos de contagem antecipada. A laje nossa ficou num intervalo: nem euforia, nem luto — ensaio de festa, como tudo que a gente nomeava pra não quebrar cedo demais.
Perto das onze e meia, a janela do Kaio, do outro lado da rua, acendeu mais forte. Ele apareceu na própria laje vizinha — descobri naquele instante que o prédio dele também tinha acesso ao teto — camiseta escura, lata na mão, trinta e quatro anos enfim em corpo inteiro, não só em fragmento de vidro. Nosso olhar se encontrou por cima do vão da rua. Desejo lento à distância ganhou laje e calor úmido. Ele ergueu a mão. Eu ergui a minha. Depois, inesperado, ele apontou pra baixo, pra rua, e depois pra nossa laje, perguntando sem voz: posso?
Eu olhei o círculo. Lia assentiu com o queixo. Brad franziu um segundo — ciúme mínimo, ou cautela de ensaio — e depois fez que sim. Nando ergueu a água em saudação. Pri acenou demais, sotaque até no gesto.
Desci rápido, abri o portão no kombinado de olhar, senhorio que se dane uma noite. Kaio atravessou a calçada molhada de umidade, subiu a escada, o terceiro degrau rangeu pra ele também, e apareceu na laje com o cheiro lembrado de pão da padaria da Consolação e um sorriso contido de quem entra em casa alheia pedindo licença.
— Feliz ano. Eu sou o da janela. Kaio. Só um brinde. Não vou ocupar sofá.
— A laje não é sofá — eu disse. — É trégua ao ar livre. Joe. A gente já se falou. Pão.
Ele riu baixo, reconheceu. Ficou pouco. O bastante pra beber metade de uma lata, rir de uma piada da Pri sobre cappuccino sem espuma, elogiar de longe as luzes de fita crepe — “estética de sobrevivência, eu respeito” — e me olhar um segundo a mais quando os fogos do centro começaram a engrossar. Desejo lento, agora com presença breve, voz, nome completo no ar da laje. Nada de número trocado. Nada de beijo. Só a prova de que o vizinho existia em três dimensões e cabia no círculo sem derrubar o ensaio com Brad. Antes da meia-noite ele se despediu — “a mãe liga se eu não aparecer lá, tradição chata e boa” — e voltou pra própria laje. Acenou de novo por cima da rua. Eu acenei. O quase ficou quase. A casa, por um instante, coube nele sem rachar.
A contagem começou nos prédios em volta: dez, nove, oito. Nós colamos no círculo. Sete, seis. Brad ao meu lado, ombro colado de verdade dessa vez — não quase, colado, o calor úmido fazendo a pele falar o que a boca ainda ensaiava. Cinco, quatro. Lia e Nando um na frente do outro, a noite antiga entre eles como terceiro corpo sem nome. Três, dois. Pri gritando o número com o celular ainda bloqueado erguido como tocha. Um.
Fogos. Estouro. Luz longe. Alguém na rua gritou *feliz*. Na nossa laje, o ano novo entrou sem permissão e sem salvação, só com gente úmida e promessas já meio furadas de tão humanas.
Brad virou o rosto. Eu virei o meu. O beijo veio sob pressão do calendário — não só o beijo curto do corredor de outra madrugada, outro: um segundo a mais, boca com gosto de cerveja e de medo, mãos que quase subiram pro pescoço e ficaram no antebraço, o desejo lento finalmente tocando sem virar quadro. Ensaio sob fogo de artifício. Quando afastamos, a testa dele encostou na minha. Respiramos o mesmo ar quente. O mantra latejou sem sair inteiro. *Ser feliz de verdade.* Talvez. Talvez não. Talvez só ficar mais um ano no segundo andar.
— Continua ensaio? — ele perguntou no barulho dos fogos.
— Continua. Sem quadro cedo. Sem fuga. Sem ser o primeiro a ir embora só porque o ano virou.
Ele assentiu. Beijou de novo, rápido, selo de virada. Depois soltou. O espaço voltou. O desejo não morreu; engrossou, úmido, possível.
Do outro lado do círculo, Nando e Lia não se beijaram. Fizeram pior e melhor: se olharam o bastante pra noite antiga subir entre os fogos. Eu ouvi, no meio dos estouros, a voz dela baixa, crua:
— Aquele janeiro. Você lembra. A gente quase destruiu a casa por menos do que uma planilha.
— Lembro. Eu bebia. Você fingia que não via. A gente quase…
— Quase. Sempre quase nessa casa.
— Hoje não é quase de corpo — ele disse. — É quase de perdão. Eu não peço fácil. Não mereço fácil.
— Eu não dou fácil. Mas… feliz ano, Nando. Sem vilão. Um dia. Trinta, se der. E a luz no peito da tela: não tapa. Mesmo se vender. Especialmente se vender.
Eles bateram lata de água em lata de vinho. O som foi ridículo e santo. Pri filmou fogos e depois apagou o vídeo, superstição de interior — “filme demais, ano foge”. Eu ri. Brad riu. A laje inteira riu com a garganta ainda cheia da briga e mesmo assim aberta.
A chuva, teimosa, começou miúda depois da meia-noite. Não expulsou a gente na hora. Molhou as luzes de fita crepe até elas piscarem. Molhou o cabelo. Molhou a trégua. Molhou o beijo ainda na boca. Descendo, carregamos o balde, as almofadas encharcadas, a caneca rachada agora com borra de vinho. O terceiro degrau rangeu. A cozinha recebeu os sobreviventes com o cheiro de mofo e de ano novo. O ímã verde ainda estava lá, contas e tudo; janeiro não apagava boleto. Alguém pôs café ralo pra nascer o dia. Alguém — Nando — disse que a tela ia ver o primeiro sol do ano no cavalete, luz no peito de verdade, sem verniz mentiroso.
Kaio, na janela, acenou uma última vez antes de apagar. Eu acenei da varanda. Desejo lento guardado no bolso junto com a chave torta e o medo antigo, agora um pouco menos sozinho.
O amanhecer veio com ressaca emocional mais do que etílica. Eu deitei um pouco e não dormi. Brad dormiu no sofá da sala, casaco por cima, o rosto de quem beijou sob fogos e ainda tem parcelas com o Mel. Lia roncou leve atrás da porta, pasta no chão, demissão nomeada. Pri desbloqueou o celular às quatro e dezessete — eu ouvi o bip traidor — e xingou a si mesma baixo, promessa furada em tempo recorde. Nando ficou no atelier até clarear, água na mão, olhando o corpo sem rosto como quem pede que o ano seja menos covarde que o anterior.
Eu levantei com a boca seca e fui à janela torta. Santa Cecília acordava suja e úmida. O toldo pingava o resto da chuva da virada. A caneca rachada na pia. O envelope nomeado. A tela no cavalete. A janela do Kaio clara de novo. O celular tela pra baixo na minha cadeira. O café ralo já queimando de novo na boca do fogão. O senhorio ainda dormia, alheio às nossas tréguas e aos nossos beijos.
Pensei em resaca política — a frase veio sem eu pedir, título do dia seguinte, o que a casa ia sentir quando a festa baixasse e a planilha voltasse, quando a demissão da Lia enfrentasse janeiro de verdade, quando o ensaio com Brad tivesse que atravessar manhã sem fogos, quando o Nando tivesse que sustentar o só água além da virada, quando o Kaio voltasse a ser só janela ou resolvesse ser mais. A casa ia doer acordada. Eu também. Dor de quem ficou.
Mesmo assim, repeti o mantra baixo, olhando o vapor fraco subir da rua quente:
Ser feliz de verdade.
Se viesse, viria assim: depois da briga, depois do beijo sob pressão, depois do vizinho em três dimensões, depois da chuva na laje e da trégua frágil. Viria sem eu salvar ninguém. Viria no quase-toque, no silêncio que pesa, no segundo andar de um sobrado queer em São Paulo que ainda respirava — ferido, úmido, inteiro o bastante — enquanto o ano novo, indiferente e necessário, começava a cobrar o primeiro dia com o cheiro teimoso de café ralo e a promessa, ainda não furada por completo, de que ninguém seria o primeiro a ir embora só porque a resaca política já batia na porta.